SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 16:49

Canal da Nicarágua?

Após ter declarado a independência em 1821, a Nicarágua tornou-se parte do Império Mexicano. Deixou-o em 1823, para se juntar às Províncias Unidas da América Central, a federação de ex-colónias espanholas administradas a partir da Cidade da Guatemala.

Surgiram então imensos conflitos quando as autoridades nicaraguenses ficaram insatisfeitas com a centralização do poder na Guatemala. Um dos problemas era o projecto de um canal que ligasse o Mar das Caraíbas ao Pacífico.

Os nicaraguenses consideravam como indispensável a construção do canal, mas o governo central temia que, se a aprovasse, os portos guatemaltecos ficariam prejudicados. Os políticos locais cedo chegaram à conclusão que o governo central estava demasiado longe para compreender as suas necessidades e, em 1838, saíram das Províncias Unidas e criaram um estado separado. Como sabemos, sucederam-se trinta anos de anarquia, décadas de ditadura e duas guerras civis.

Ora bem, aprendemos nas aulas de geografia a importância do Canal do Panamá nas trocas comerciais entre a Europa e o Extremo Oriente, entre as costas leste e oeste da América do Norte. Nas de história, ensinaram-nos que foi uma empresa francesa que planeou a obra, mas que por motivos financeiros e técnicos, abriu falência e desistiu. Por fim, deve-se aos E.U.A. a conclusão desta maravilha da engenharia, cuja soberania foi restituída à República do Panamá a 1 de Janeiro de 2000.

Avançando no tempo, ao carregar no botão “fast forward” da história contemporânea, tomámos conhecimento que apareceu um chinês milionaríssimo, um tal Wang Jing cuja riqueza ultrapassava os 10.000 milhões de dólares, que propôs uma alternativa à via panamense. Como se pode verificar no mapa, ressuscitou o velho projecto que passa pelo Lago Nicarágua.

Como se podia ler no “Toronto Star” (14.07.2014): “Calculado em 278 km, o canal irá de oeste a leste, da foz do rio Brito, na costa do Pacífico, perto da fronteira com a Costa Rica, atravessando o Lago Nicarágua (105 km de largura) até chegar ao Caribe.” Este jornal noticiou igualmente que “o presidente Ortega – rebelde esquerdista que liderou uma luta armada contra o ditador Somoza – deu a concessão a uma empresa da República Popular da China (a HK Nicaragua Investment Company)”.

Assim como em África, também se nota na América Central a substituição de um imperialismo por outro. É impossível construir este novo canal sem arrasar tanto o meio ambiente do sul do país como a sobrevivência de milhares de pequenos agricultores. Em causa: quatrocentos mil hectares de floresta tropical. Os termos do contrato negociado com Daniel Ortega, líder da Frente Sandinista de Libertação Nacional, são neocolonialistas. Claro que o jornalixo politicamente correto não perde tempo com “insignificâncias” deste tipo e quem por ventura mostrar as contradições é denegrido.

Segundo se veio a saber mais tarde, o projecto estaria atrasado —ou anulado— porque a riqueza pessoal de Wang ficou reduzida a um quinto em consequência dos colapsos da Bolsa de Xangai.

No século XVII, figuras incontornáveis da história da pirataria mundial ocuparam diversos locais na costa caribenha. Por exemplo William Dampier e o célebre Henry Morgan. Este último subiu o rio San Juan e atravessou o Lago Nicarágua para ir pilhar Granada. Todavia, nem tudo o que os piratas fizeram foi mau. Fundaram mais povoações do que destruíram. Bluefields, Bilwi (Puerto Cabezas) e outras cidades começaram por ser refúgios de corsários.

É um facto que, em particular nos Séculos XVII e XVIII, estas paragens abrigaram corsários e bucaneiros. Diz-se que a pirataria desapareceu em meados do Século XIX. Porém, parece mais apropriado afirmar que se metamorfoseou. Com efeito, americanos ou chineses, esquerdistas revolucionários ou ditadores da direita aproveitam-se sempre que podem.

Já aludimos noutro apontamento à expressão “quedar bien”, que reflecte o desejo de deixar uma boa impressão. Hoje, vem a propósito mencionar que os nicaraguenses usam um dito que traduz o que o povo humilde pensa destas ocorrências históricas: “va pues”. É como o nosso “que havia de ser?”. Utilizam essa expressão constantemente.

Influenciados pelo que temos constatado na política portuguesa, também começamos a pensar da mesma forma.

“Va pues”! O pior cego é o que não quer ver.

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