SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 02:19

Pobre Nicarágua, mesmo com perdão da dívida

Como já aqui escrevemos, foi com satisfação que visitámos a Costa Rica, um país que não se pode comparar com os seus vizinhos do norte. Para não desiludir alguns leitores, ponderámos se devíamos ou não partilhar algumas impressões sobre a Nicarágua.

Há quem julgue que, por um segmento da população ter feito uma revolução, tudo melhora para todos. Tencionamos analisar num futuro próximo o caso do Zimbabwe de Robert Mugabe e talvez possamos pensar em Cuba, no Brasil ou na Venezuela.

É o maior país da América Central, situado na faixa do continente que liga a América do Sul à América do Norte. Possui belas montanhas, vulcões activos e florestas com tucanos, preguiças, macacos, jaguares e jibóias. A história é mais complicada, pois nela transbordam hostilidades partidárias, repressão e ocupação estrangeira.

Os nicaraguenses têm trabalhado com afinco para reduzir o analfabetismo, a injustiça social e a mortalidade infantil. Após quarenta e dois anos sob o jugo da família Somoza, veio a revolução sandinista. A “Frente de Liberación Nacional” recebeu o nome de Augusto César Sandino (1895-1934), herói da resistência.

Em 1979, o partido acabou com a ditadura dos Somozas e, bem ou mal, governou durante cerca de onze anos. No espaço deste tempo, organizou eleições e promulgou uma constituição. Foram evidentes os esforços para ajudar os pobres e relançar a economia, mas após um breve período de progresso rebentou outra guerra civil que destabilizou a economia e parou bastantes projectos de reforma social.

Os ataques dos “Contras” — sustentados por Reagan— persistiram até às eleições presidenciais de 1990. A vencedora foi Violeta Chamorro, a primeira mulher presidente. Teve o apoio de Washington porque defendia um regime democrático e a economia de mercado.

De facto, os nicaraguenses nunca foram bem governados. Primeiro pelos colonizadores espanhóis, em seguida pelos estados centro-americanos, pelos Marines dos EUA, pelos ditadores locais, pelo regime esquerdista e, no presente, pelo governo democraticamente eleito. Embora o povo esteja numa situação próxima do desespero, não desiste da luta por melhores condições de vida.

A dívida tem sido um grave problema. Como noutros países nossos conhecidos, os sucessivos governos viveram de empréstimos. Recorreram a dinheiro estrangeiro para financiar as actividades governamentais, a construção de estradas e a educação. Essa dívida tocou o máximo durante o governo socialista (1979-90), quando se elevou a 12 mil milhões de dólares. Foi depois reduzida para 6 mil milhões (ou $ 2.500 por pessoa) durante os anos Chamorro.

Em seguida, subiu ao poder Enrique Bolaños que prometeu combater a pobreza, o desemprego, a corrupção e buscar alívio para o peso da dívida internacional. Em 2004, este último objectivo foi cumprido quando o Banco Mundial perdoou 80 % e a Rússia desculpou a sua dívida, que datava da era soviética.

Os contribuintes portugueses sabem como sucessivos governos contraíram calotes estratosféricos para satisfazer as clientelas que os aguentam no poleiro. Também sabem como uma enorme percentagem dos impostos serve apenas para pagar os juros desses empréstimos.

O que talvez os nossos compatriotas desconheçam é a miséria em que vive a maioria dos nicaraguenses. É difícil de acreditar que existam capitais como Manágua, uma gigantesca favela com cerca de dois milhões e meio de residentes. À medida que as cidades crescem, os problemas causados pela falta de emprego e por outras carências tornam-se mais difíceis de conter. A pobreza e o crime estão juntos, em particular nas aglomerações urbanas. A violência associada às drogas representa uma percentagem crescente da taxa de criminalidade.

Um amigo recomendou-nos uma visita a Granada, a segunda maior cidade e um importante centro comercial a poucos quilómetros a norte da fronteira costarriquenha. É a urbe mais antiga da Nicarágua, fundada em 1524 pelo espanhol Francisco Hernández. Como Manágua, também está localizada na margem de um enorme lago e perto de um vulcão. A bonita catedral de estilo neoclássico atrai os turistas que são avisados para não se afastarem da zona central. Parece que os carteiristas locais são exímios coleccionadores de passaportes e porta-moedas.

Por ali se vêem novas lojas, restaurantes e supermercados que surgiram desde que regressou a economia de livre mercado. Longe vão os dias das plantações estatais e dos bancos controlados pelo governo. Granada insere-se hoje num quadro de maior desenvolvimento comercial, porém as aparências enganam. Os padrões de vida não progrediram. Os empregos são escassos e a maioria da população não consegue alimentar as suas famílias. A pobreza generalizada está para ficar.

Os problemas políticos e económicos, combinados com os frequentes desastres naturais, tornaram difícil a protecção do meio ambiente. As falhas na aplicação das leis e a pobreza levaram à sobreexploração das terras de cultivo, aumentando assim a destruição das matas e a poluição das águas.

Vê-se lixo por toda a parte, um sinal óbvio de que o povo ainda não compreendeu quão importante é manter os ecossistemas intactos em benefício das próximas gerações.

Ao atravessar a fronteira entre a Nicarágua e a Costa Rica, o contraste entre os dois países é evidente.

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