SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 16:47

Costa Rica: Ticos e “Pura Vida”

Surgiu uma oportunidade para irmos à Costa Rica e aproveitámos para visitar o Edgar, um amigo que não víamos há mais de meio século, quando ambos recebemos bolsas para estudar no Estado de Indiana. De lá, ele seguiu para Salamanca onde se licenciou em medicina.

Foi professor universitário em San José, jubilou-se e por fim encontrou tempo para outras paixões: a música folclórica, a escrita e a quinta onde nasceu, perto da Nicarágua. É exímio guitarrista e os seus livros (“El Guanacaste que se fue”, “Los Devotos del Negrito”, “Santa Cruz y el Cristo de Esquipulas”) fazem lembrar os do torrejano Joaquim R. Bicho. O apontamento de hoje é dedicado a este ex-colega e grande investigador da história e das tradições guanacastecas.

Os costa-riquenhos são na maioria de ascendência espanhola e ameríndia, num equilíbrio de tradicionalismo e progresso. Referem-se a si mesmos como “Ticos” e o seu nível de literacia (97,8%) é superior ao de Portugal (95,4). Em geral, orientam-se por valores conservadores, em particular no que toca à família e ao meio ambiente. A reputação desta nação é extraordinária devido à preservação da natureza e ao facto de ser um dos raríssimos países do mundo que aboliram as forças armadas. Preferiram investir na educação.

A abolição dos militares foi inscrita na Constituição de 1949. O governo dessa altura explicou esta decisão com uma analogia. Se um membro de uma família estiver doente, o médico faz uma visita. Mas, curada a doença, não há necessidade de o médico continuar sempre presente.

É um país pequeno, cuja superfície é quase igual à do Alentejo. Está limitado pela Nicarágua a norte e pelo Panamá a sul, tendo o Mar das Caraíbas a leste e o Oceano Pacifico a oeste. Destaca-se com facilidade dos vizinhos centro-americanos não só pela beleza natural, mas também pela estabilidade politica e prosperidade económica. Sem revoluções, ditaduras, nem guerras. É uma das democracias mais antigas do Continente, um estado que permanece fiel aos seus ideais.

Tem eleições regulares, com cidadãos com um grau elevado de escolaridade e politicamente activos. Cada quatro anos, no primeiro domingo de Fevereiro, elegem o presidente, os vice-presidentes e os membros da Assembleia Legislativa. A Costa Rica foi chamada a Suíça latino-americana.

Os padrões de vida são altos, sobretudo em comparação com os dos vizinhos das Américas Central e do Sul. A estabilidade política e a qualidade da formação continuam a atrair capital estrangeiro para mega investimentos na agricultura, no turismo e na produção de microprocessadores para computadores, componentes electrónicos e equipamento hospitalar.

Neste cenário bem positivo, compreende-se que o povo se dê a si mesmo a alcunha de Ticos. Ao apelidarem-se deste modo, invocam orgulho e singularidade. Reconhecem-se primeiro como costa-riquenhos e só depois como latino-americanos. Segundo nos explicaram, o apelido tem origem no dito colonial: “somos todos hermanitos” ou, com a adição de outro diminutivo,”hermaniticos”. Evidência do hábito popular de acrescentar às palavras o sufixo “tico”, para além de “ito”.

A terminação “tico” é uma peça essencial na construção da identidade pátria. Não só eles a abraçaram como alcunha, mas transformou-se num elemento característico da “idiossincrasia nacional”, como gostam de afirmar. Para descrever algo que é típico da sua cultura, dizem que é “muy tico”.

Com efeito, uma peculiaridade do espanhol falado na Costa Rica é a utilização de “tiquismos”, expressões que são usadas apenas pelo Ticos. Por exemplo, “buena nota” que significa OK. Outra é “pura vida!” que se pode traduzir por “a vida é bela; aproveita-a!” ou “que coisa fantástica!”

Pura Vida! É assim que avaliamos a existência na Baía de Tamarindo, inclusive os dias que lá passámos. O número de “turistas” não é exagerado. Se esquecermos os surfistas, os hostéis para a malta nova e as casas alugadas a pensionistas “gringos” e europeus, ainda se pode respirar o ar marítimo e saborear uma “piña colada” por poucos colones. Claro que há lojas chiques, excelentes restaurantes e um ou outro hotel de luxo.

Embora a saturação não tenha atingido o ponto crítico como aconteceu no Algarve dos anos sessenta, a opinião do nosso amigo Edgar é bastante negativa e reprobatória. De coração desfeito, contou-nos que se recorda dos tempos de criança, quando viajou até aqui com os pais e irmãos para ir “a tocar el mar y a bañar en la espuma de las olas”. Foi com emoção que nos descreveu a jornada numa “carreta de bueyes” e como era Tamarindo em fins da década de quarenta. Meia-dúzia de pescadores paupérrimos viviam então neste lugar maravilhoso.

O turismo internacional cria problemas de todo o género. Há porém países que conseguiram combinar esta actividade económica criadora de milhões de empregos e a protecção da natureza. Neste, como noutros aspectos, a Costa Rica é um modelo a seguir.

Sim, com um dos ambientes naturais mais ricos e diversificados do planeta, este país também é um excelente exemplo do que se pode e deve fazer em matéria de ecoturismo. Sem grande extensão, tem três inscrições no património mundial da UNESCO: Zona da conservação de Guanacaste, Ilha dos Cocos e Parque “La Amistad”.

Ficámos satisfeitos com o local. Jamais esqueceremos o despertar às cinco da manhã, com as serenatas madrugadoras dos macacos bugios e a cacofonia da passarada. Pura Vida!

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