SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 04:21

Santa Lúcia, nas Caraíbas

Sentimos uma enorme atracção pelas Caraíbas desde os tempos em que líamos histórias de piratas e flibusteiros no “Cavaleiro Andante”. Hoje, deixamos a Martinica e chegamos à vizinha Santa Lúcia que, no século XVI, serviu de último reduto ao célebre François LeClerc, mais conhecido por Perna de Pau. Só não sabemos se tinha olho de vidro e cara de mau.

Em Janeiro de 1961, os portugueses ouviram com frequência o nome desta ilha. No dia 22, um grupo revolucionário ibérico, que antes tinha sequestrado o “Santa Maria”, matou a sangue frio o piloto Nascimento Costa. Logo a seguir, o paquete desembarcou nesta ex-colónia britânica os feridos graves e alguns tripulantes.

Pouco se sabe com exactidão sobre o descobrimento da ilha. Porém, ele é em geral atribuído a Cristóvão Columbo. Em que data? 13 de Dezembro de 1502, Dia de Santa Lúcia. A partir do século XVII, passou catorze vezes pelas mãos da França e da Inglaterra para acabar definitivamente na posse dos ingleses, pelo Tratado de Paris de 1814. Em 1967, tornou-se um estado parceiro da Commonwealth e é independente desde 1979.

Tem uma herança cultural bastante rica, mistura de tradições inglesas e crioulização africana. Santa Lúcia, com menos de 185.000 habitantes, pode orgulhar-se de ter produzido dois Prémios Nobel: Derek Walcott (nascido em 1930) que recebeu o Nobel de Literatura em 1992 e Arthur Lewis (1915-1991), galardoado com o Nobel de Economia em 1979. Grande sucesso! Maiores países como o Brasil ou a Nigéria apenas receberam um, com populações a rondarem os duzentos milhões.

Os santa-lucenses também se ufanam da bandeira. Reflecte as características naturais da ilha: dois triângulos sobrepostos, um dourado e outro preto delimitado por uma linha branca, num fundo azul. O azul representa a cor do céu e do mar, o dourado a luz do sol e o preto a maioria racial da população. Os dois triângulos evocam os colossais Pitons que emergem do mar e apontam para o firmamento.

Estes picos verdes sobressaem contra o horizonte. São as silhuetas de vulcões gémeos, Gros Piton e Petit Piton, cujos flancos descem 700 m quase a pique para o mar — o “ex-libris” da nação.

Com uma abundância de terras férteis, Santa Lúcia tem vivido da agricultura. Os alimentos de todos os dias ainda são os mesmos que os habitantes comiam no tempo das plantações: inhames, banana-da-terra, batata-doce e fruta-pão. O prato nacional chama-se “figos verdes com peixe salgado”, um simples guisado de cebola, pimentos e bacalhau seco, acompanhado com bananas-da-terra cozidas.

O único produto que susteve a economia por quase 100 anos foi a banana, a que o povo chama “ouro verde”. Existem duas variedades principais: a amarela igual à que se vende nos supermercados portugueses e a banana-da-terra (plantain), que é um pouco mais longa, mais rija e mais escura. Ao contrário da banana comum, não se pode comer crua mas tem de ser frita ou cozida. Tem um sabor semelhante ao da batata.

Até o início da década de noventa, a maioria das bananas consumidas no Reino Unido eram importadas deste país da Commonwealth. Foi assim desde 1975, mas, em 1993,a União Europeia impôs uma série de tarifas e quotas que prejudicaram imenso Santa Lúcia. Para agravar a situação, uma grande empresa americana queixou-se à Organização Mundial do Comércio e conseguiu a abolição do que restava desse tratamento preferencial.

Centenas de agricultores abandonaram a cultura das bananas. Muitos dos que foram para o desemprego eram jovens e, quiçá por falta de alternativas, alguns deles voltaram-se para outra fonte de dinheiro: a venda das drogas. As excepções ainda vivem da cultura da mandioca e dos cocos.

Por fim, o governo viu na exploração das belezas naturais uma solução para a crise económica. O verde-esmeralda das florestas, o azul profundo do oceano e as praias douradas, são os trunfos utilizados para atrair os regelados residentes da América do Norte e da Europa. Quando os termómetros baixam nessas regiões, a indústria turística entra em acção. Hospedar e alimentar estes visitantes tornou-se um manancial de divisas. O turismo foi a resposta. Quase 50% do PIB.

A importância do turismo é fácil de constatar, sobretudo nas magníficas enseadas de Marigot, Rodney e particularmente em Castries, onde se encontram a sede do governo, hotéis de luxo e restaurantes com bastante charme. Até vem a propósito acrescentar outro elemento económico: o país é considerado um paraíso fiscal.

A fuga à meteorologia invernal e aos infernos fiscais fascina muita gente. Por certo que os legados da cultura britânica também constituem um atractivo. Embora não percebamos patavina de críquete, é agradável ver clubes de vizinhos a praticarem este desporto nas tardes de domingo.

Outrora antro de piratas e no presente um procurado destino de turistas endinheirados, este éden tropical continua “very British”. Merece uma visita.

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