SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 21:30

Martinica, a França nas Antilhas – 2

Quando nos ensinaram a história dos descobrimentos marítimos, tanto na escola primária como no colégio, jamais ouvimos os professores mencionarem Lançarote de Freitas. Este navegador efectuou diversas expedições a África, ao serviço do Infante D. Henrique. Em 1444, trouxe duzentos escravos para serem vendidos em Lagos, cidade onde nasceu. Desde então, portugueses, ingleses, holandeses e franceses fizeram fortunas com a compra e venda de seres humanos.

São capítulos da história universal que envergonham alguns povos da Europa. A exploração portuguesa do Brasil não teria sido possível sem esta mão-de-obra. Também todo o desenvolvimento desta região esteve associado ao modelo de produção esclavagista. É um campo de investigação fascinante. Contudo, hoje, limitar-nos-emos às Antilhas. Mais precisamente à Martinica.

Os governantes bem tentam apagá-los, todavia não conseguem. Há episódios que embaciam a “gloire de la République”. A escravatura é um deles. A importação de escravos africanos para as possessões antilhanas começou em 1680. Este “comércio” permitiu que empresas e armadores dos portos de Nantes, Bordéus e La Rochelle acumulassem riquezas fabulosas.

Embora as gigantescas transferências de fundos vindos da Metrópole se traduzam num nível de vida superior ao das ilhas independentes vizinhas, os habitantes dos departamentos ultramarinos conhecem o passado e não perdoam.

Os discursos dos políticos não passam, em geral, de conversa fiada. As ocorrências reais é que determinam o espírito de um povo. Assim, classificamos como simbólico o que aconteceu à estátua de uma das pessoas mais importantes nascidas nesta ilha: a Imperatriz Joséphine, mulher de Napoleão Bonaparte. Foi erigida à sua memória em 1869, no parque mais importante da capital (Fort-de-France).

Talvez os leitores desconheçam que Joséphine de Beauharnais foi coroada imperatriz em 1804. Após a “revolução” ter abolido a escravatura em 1794, o marido restaurou-a em 1802 para reconquistar o coração da mulher que o tinha abandonado. Porquê? Ora bem, os sogros de Napoleão tinham enormes plantações nas Antilhas cuja prosperidade dependia do trabalho de centenas de escravos.

Sob a pressão de Victor Schoelcher, um decreto de 27 de Abril de 1848 aboliu definitivamente a escravatura nas colónias francesas. Só na Martinica, mais de 70.000 homens e mulheres obtiveram a liberdade.

Nós bem indagámos, contudo não conseguimos obter uma explicação cabal para o facto da estátua da imperatriz não ter cabeça há cerca de vinte anos. Parece que foi decapitada. Tampouco nos puderam elucidar sobre as manchas de tinta vermelha. Alguém as lançou para lá. Quiçá por vandalismo. Somos porém forçados a acreditar que a interpretação pode ser outra. Um “mistério” que leva a muitas especulações.

Na Martinica, o visitante não se deve contentar com a praia. É melhor tentar compreender a história de um povo desenraizado que procura a sua identidade. É compreender a história de França e da escravidão.

De facto, esta terra com sabor a paraíso carrega consigo feridas profundas, testemunhos de um passado bastante doloroso. Descoberta por Cristóvão Colombo em 1502 tem sido, desde então, cobiçada por diversos povos. Primeiro, foram os índios Arawak com uma maneira simples de sobrevivência, semelhante à dos homens do Neolítico. Depois, instalaram-se à força os Caribes. Estes, por seu turno, envolveram-se numa luta desigual com os europeus que acabaram por os exterminar. Como resultado, desapareceu a mão-de-obra nativa e os colonos decidiram ir buscar escravos em África.

As plantações de cana-de-açúcar deram origem a uma sociedade fundada na injustiça e na desigualdade, no conflito e no sangue, na qual as poderosas famílias de brancos receberam propriedades e escravos. Um mundo que se ia desmoronar abruptamente nos meados do século XIX, com a referida abolição da escravatura e a concorrência do açúcar de beterraba.

A ninguém surpreenderá que o berço da corrente literária chamada “négritude” tenha sido aqui. Marcou o período entre as duas grandes guerras e reuniu escritores negros de língua francesa como Aimé Césaire, Léon Damas, René Depreste e Leopold Senghor. Ligada ao anticolonialismo, influenciou, mais tarde, o nacionalismo negro mesmo fora dos círculos francófonos.

Foi com estas ideias no pensamento que iniciámos uma longa caminhada à beira-mar. O sol a relembrar-nos que é ele quem manda nos trópicos ao meio-dia. Refugiámo-nos num bar com ar condicionado, no qual um grupo de trabalhadores agrícolas bebiam cerveja e apostavam nos puros-sangues a correr em Paris. Alguém sugeriu que provássemos as “acras”, uma espécie de “pataniscas” de bacalhau seco mas em forma de “sonhos”. Uma herança cultural africana demasiado oleosa para o nosso gosto.

Concluímos dizendo que esta visita não decepcionou. Tivemos uma estadia de qualidade, numa ilha decorada em tons de azul e verde, com aromas de especiarias e rum. Habitada por um povo sem pressas.

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