SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 15:51

Martinica, a França nas Antilhas – 1

Há anos que não íamos às Antilhas. No meio de mais um nevão canadiano, foi-nos dada a oportunidade para fazer uma visita à Martinica. Como outros leitores da nossa geração, associávamos esta ilha a uma marcha brasileira que a antiga Emissora Nacional tocava com frequência: “Chiquita Bacana lá da Martinica /// Se veste com uma casca de banana…”. Recordamos que continuava assim: “não usa vestido, não usa calção, inverno para ela é pleno verão”. Não hesitamos e fomos apanhar o primeiro voo.

Trata-se de um departamento ultramarino francês, com direitos iguais aos dos residentes na Bretanha ou no Auvergne, mas para além disso pouco sabíamos do que nos esperava. Logo após a saída do aeroporto, e enquanto atravessávamos os subúrbios da capital (Fort-de-France), demo-nos conta das inumeráveis semelhanças com a “metrópole”, como se diz aqui. A arquitectura é mais francesa que antilhana. São numerosas as rotundas, os blocos de apartamentos tipo HLM, as igrejas católicas e até os painéis de publicidade a conhecidas marcas do Hexágono.

A ilha, ao que parece, considera-se não como um posto avançado da França, mas como uma parte integrante do país. Como nos declarou um motorista de táxi: “L’histoire de la Martinique, c’est l’histoire de la France” (A história de Martinica é a história da França).

Fixámos o aviso, porém é óbvio que o ar era mais quente e húmido, que os cafés, restaurantes e outros comércios do aeroporto estavam pintados em tons exuberantes de vermelho escarlate, amarelo canário e verde-esmeralda. Como sabemos, em Rouen ou Lille é tudo mais cinzento.

“Voici les Antilles”, um conjunto insular com sabor a paraíso perdido e, com ele, o mito do Jardim do Éden, apertado entre o Trópico de Câncer a norte e o Equador a sul. A mais de 6.000 km de França e a 130 da quase vizinha e irmã Guadalupe. Apenas a pequena Domínica, independente do Reino Unido desde 1978, fica mais perto (23 km). Outra ex-colónia britânica, Santa Lúcia, encontra-se a 37 km. A população é de 403.000 pessoas e a temperatura da água do mar ronda os 25°C durante todo o ano. A do ar anda pelos 30 graus.

E, falando de ingleses, deve-se mencionar que a ilha nem sempre foi francesa. Os súbditos de Sua Majestade ocuparam-na de 1762 a 1814, o Tratado de Amiens devolveu-a à França. Como no jogo de cadeiras musicais, mais tarde, os ingleses tomaram de novo a ilha. No meio disto tudo, pelo Tratado de Paris, a Coroa Britânica obteve o Canadá em troca da Martinica. Os ingleses sempre tiveram olho para o negócio.

É evidente que se trata da França tropical, misturando aqui alguns dos aspectos gauleses mais atraentes. É sem dúvida diferente, na amálgama de afro-martinicanos, brancos e asiáticos.

Vem a talhe de foice referir que, século e meio depois da abolição da escravatura, o veneno da intolerância não desapareceu completamente. Ainda existem diferenciações muito subtis e uma desconfiança geral face aos indianos e chineses. Comunidades distintas que a grande maioria de afrodescendentes tardam em reconhecer como iguais. Quanto aos brancos, os funcionários públicos metropolitanos são “pássaros de arribação”. Vêm, acumulam uns euros e regressam à Europa. No que diz respeito à reduzida minoria de brancos autóctones, é patente o seu controle das terras agrícolas e das grandes firmas comerciais.

Ao raspar o verniz das relações étnicas, descobrimos problemas complicados que podem vir à superfície quando menos se espera. Basta referir os atentados de 1980 na Guadalupe.

O remédio para o desenvolvimento explosivo pode encontrar-se nas aldeias encantadoras, onde a vida continua como sempre e os euros da especulação turística não fizeram estragos irreparáveis. Rodeados por montanhas majestosas cobertas por florestas e emoldurados por praias de areia branca, em particular na costa sudoeste da ilha, existem locais inesquecíveis. Por exemplo, a adorável Anse d’Arlet ou a deslumbrante Grande Anse.

A zona plana estende-se ao longo da costa, plantada de cana-de-açúcar e de bananeiras de folhas grandes. As pequenas vilas e aldeias têm óptimo aspecto: casas de um e dois andares, com varandas e telhados de pico para repelirem a chuva, aninhadas entre buganvílias.

As aparências iludem e há a outra face da moeda. A taxa real de desemprego é demasiado elevada. Quase metade da população com menos de 30 anos está desempregada e os beneficiários do Rendimento Mínimo Garantido e do Rendimento de Inserção da Segurança Social atingem números impensáveis na Europa. Por isso mesmo, os partidos independentistas não conseguem cativar os eleitores. Uma grande vantagem é a associação, através da República Francesa, à União Europeia.

Um dos políticos incontornáveis neste processo foi o escritor Aimé Césaire que fundou, em 1958, o PPM (Parti Progressiste Martiniquais). Dois anos antes, tinha-se desligado do PCF (Partido Comunista) na sequência das revelações dos crimes do estalinismo feitas por Khruchtchev.

Sem os benefícios sociais e, até certo ponto, o turismo, viveriam das bananas e do rum. Em 1934,existiam 212 destilarias. Esta região tem a particularidade de tornar compatível o incompatível: açúcar e rum, caretas e sorrisos, chuva e sol, vulcões e vegetação paradisíaca. Idem na política.

Ficámos alojados perto de Sainte-Luce, uma aldeia de pescadores à qual tencionamos voltar. A meia centena de metros, tínhamos o mar e, mais distante, na linha do horizonte, via-se a costa e o relevo de Santa Lúcia.

Dormíamos a ouvir as ondas, contudo o barulho não era exclusivamente marítimo. O silêncio não é um traço essencial das noites tropicais e a orquestra desafinada de rãs e sapos pode ser ensurdecedora. Também os galos locais não sofrem de insónias. Os da vizinhança eram autênticos despertadores com penas. Começavam a cantar muito antes do raiar da aurora. Como é normal nestas latitudes, o astro-rei levanta-se bastante cedo e o pôr-do-sol é belo mas abrupto. Escurece às seis da tarde e centenas de pessoas aproveitam do ar fresco para caminhar ou correr junto ao litoral. Falar e conversar são traços culturais deste povo.

Após um bom duche e já desengordurados do creme protector SPF 60, dedicámo-nos à prova da gastronomia local que, tal como tudo o mais, é uma fusão das cozinhas francesa e africana.

Prosseguiremos com este tema.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados