SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 07:03

Munique, Baviera e Extrema-Direita

A nossa primeira visita a Munique e Baviera foi há quase meio século. Viajámos de Estrasburgo via Estugarda, seguindo caminhos antes percorridos não só pelas legiões romanas e pelos celtas, mas também por Carlos Magno e Napoleão. Contudo, foram as tribos de baivarii que deram o nome ao povo e à terra.

A sucessão de povoadores deu origem a que Baviera fosse sempre diferente do resto da Alemanha e que os bávaros não fossem como os outros alemães. Desde 1806, a Baviera foi um reino independente, membro do Império, estado da República de Weimar e parte do Terceiro Reich de Hitler.

A Baviera tem cerca de 13 milhões de habitantes e é o maior estado da confederação. Em 2015, o PIB era de 43,092 euros “per capita”, o dobro do português. Mais de 450 mil milhões no total. Valeria a pena dissecar estes dados, mas o espaço é limitado. A importância económica desta região atinge números mais elevados do que a soma de diversos países membros da UE.

Munique, a capital, é a terceira cidade mais populosa da Alemanha. Apenas Berlim e Hamburgo a superam. Metade ficou em ruinas durante a guerra, mas posteriormente foi muito bem reconstruída. Conservou uma dimensão humana. Aqui não se vêem arranha-céus como em Frankfurt, mas uma abundância de árvores, espaços verdes e fontes. Há centenas e são todas bonitas.

Os Jogos Olímpicos de 1972 ficaram na história. Milhões de amantes do desporto recordar-se-ão do “massacre de Munique”, quando um grupo de terroristas árabes sequestrou e, em seguida, matou onze atletas israelitas e um polícia. Mais tarde, alguns viriam a ser libertados em troca dos passageiros de um avião da Lufthansa assaltado por um comando palestiniano.

Não haverá muitas concentrações urbanas deste tamanho que sejam tão encantadoras e dinâmicas. As suas universidades de excelência colocam-na no topo da investigação científica. Assim, não é de estranhar que uma série de indústrias-chave se tenham aproveitado desta situação: automóveis, seguros, IT e mídia. Companhias do pelotão da frente da economia mundial têm aqui a sede. Quem não ouviu falar de gigantes como Allianz, Audi, Adidas, BMW, MAN, Puma ou Siemens?

Para ver um conhecido produto bávaro, famoso em qualquer canto do mundo, visitámos a Bayerische Motoren Werke, fabricante do popular BMW. Na verdade, a empresa que fabrica estes cobiçados automóveis também reflecte a história alemã. Criada em 1916, para produzir motores de aviões, a companhia evoluiu para o fabrico de motocicletas. Os primeiros carros só começaram a ser produzidos a partir de 1928. O capítulo mais negro na vida da BMW foi escrito na Segunda Guerra, quando usou trabalho forçado e prisioneiros de campos de concentração. Hoje, um século após a fundação, a BMW é um exemplo do sucesso da indústria germânica. Abriu um novo capítulo, quando começou a produzir em larga escala o i3, o primeiro carro a funcionar exclusivamente a energia eléctrica.

Até aqui, tudo bem. Passemos agora ao reverso da medalha.

A uma vintena de quilómetros está situado Dachau, o primeiro campo de concentração construído pelos nazis. Serviu de modelo para os demais. Quem visita este marco infame do Holocausto, jamais o esquecerá. Há bastantes lugares extraordinários e inspiradores para visitar. Esta é uma das nossas escolhas, porque não existe nada de comparável. Uma fatia horripilante da história contemporânea, um dos seus episódios mais trágicos.

Extremismos nunca faltaram na história. De novo, milhões de europeus sentem-se inseguros. Os cidadãos temem o terrorismo e a violência, enquanto os políticos temem a vontade dos eleitores. O cinismo alastra como um cancro e as contradições entre o “multiculturalismo” dos políticos e a realidade da vida quotidiana não ajudam. O medo produzido por uma série de graves incidentes é poderoso. A oposição contra a entrada de um milhão e duas centenas de milhares de sírios e afegãos é muitíssimo maior do que se lê na imprensa.

Angela Merkel e os partidos que a apoiam estão a perder a favor da alternativa populista de extrema-direita AfD (Alternative für Deutschland). Basta ler os slogans para compreender: “É preciso proteger melhor os cidadãos” e “É preciso acabar com a desordem dos refugiados”. Segundo as sondagens da Infratest DIMAP, apenas um terço da população acredita que a chanceler está a seguir a política certa em matéria de refugiados.

A AfD é um problema. Ainda pior é o partido radical chamado Pegida. Vai de vento em popa. Conhecido pela retórica inflamatória contra a islamização do Ocidente, desde 2014 que o grupo tem tido bastante sucesso na captação de centenas de milhares de seguidores. Todas as segundas-feiras, vão pelas ruas espalhando mensagens como: “Alto à islamização da Europa”, “Estamos a importar uma cultura do estupro”, “Stop à invasão”, “Refugiados vão para casa”, etc.

A atracção de movimentos como o Pegida quiçá se deva ao fracasso do país em garantir a coerência social em matéria de imigração e integração. Ficámos surpreendidos ao testemunhar uma manifestação, mesmo no centro da emblemática Marienplatz. Fotografámos a carrinha onde se lê mais ou menos seguinte: “Não-violentos e unidos contra a guerra das crenças religiosas em terra alemã!”.

Já o grande sábio Wilhelm von Humboldt afirmava que “sem segurança, não há liberdade”. Noutra oportunidade falaremos de cerveja e salsichas. Desta vez, ficámos apreensivos com o que vimos e ouvimos.

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