SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 15:52

A propósito da Cruz e da Ordem de Malta

Sempre que passamos pela Rua de São José, em Lisboa, quase na intersecção com a Rua das Pretas, olhamos com satisfação a Cruz de Malta que adorna um magnífico edifício pintado cor-de-rosa e com as janelas em verde. Mais precisamente, o número 24. Até à extinção das casas religiosas em 1834, esteve aqui situada a Recebedoria da Ordem Soberana Militar e Hospitalária de S. João de Jerusalém, de Rodes e de Malta, sucessora da Ordem Militar de São João do Hospital.

Antes de nos debruçarmos sobre a história da cruz oitavada, vem a talhe de foice fazer referência à presença portuguesa em Malta.

Como mencionámos na semana passada, no oratório da catedral da capital maltesa encontram-se dois notáveis quadros de Caravaggio. É uma das visitas incontornáveis para qualquer turista. Porém, também devia motivar os nossos compatriotas por outro motivo: o chão com sepulturas brasonadas de distintos cavaleiros. Retivemos alguns nomes: Pereira Coutinho, Guedes de Guimarães, Afonso de Sernancelhe, António Abreu, Souza e Almeyda). Sem esquecer os grão-mestres Manoel de Vilhena e Pinto da Fonseca, Mendes de Vasconcelos (1622 a 1623) e Afonso de Portugal.

António Manoel de Vilhena cujo mandato se estendeu de 1722 a 1736 é um dos mais célebres. Os cavaleiros tinham o mínimo possível de contacto com os habitantes que não faziam parte da nobreza, mas este português foi uma excepção. Fez tudo o que pôde para melhorar a vida dos malteses e, por isso, alcançou um elevado grau de popularidade. Também foi ele o responsável pela construção do Teatro Manoel (o segundo mais antigo da Europa), das importantíssimas fortificações à entrada do porto de Marsamxett e do Forte Manoel.

Manuel Pinto da Fonseca, nascido em Lamego, foi grão-mestre durante mais de três décadas, de 1741 a 1773. Morreu aos 92 anos e, até data recente, acreditava-se que a sua longevidade era devida a elixires descobertos pelo seu alquimista.

Ao contrário de Vilhena, era um homem vaidoso, exibicionista e fingido. Um excêntrico a gastar dinheiro. Por exemplo, entre o pessoal da corte, havia um padeiro cujo único trabalho era cozer no forno o pão para os cães de caça. Pinto da Fonseca ficou na história por ter um paço enorme e pelo luxo do seu séquito.

Durante o seu governo, muitos dos edifícios renascentistas de Valeta foram embelezados, incluindo o Palácio dos Grão-Mestres e o “Auberge” de Castela e Portugal cuja fotografia acompanha estas linhas. De salientar o escudo português que ainda se encontra no topo à direita, lado a lado com o castelhano. Como se pode constatar, trata-se de um edifício magnificente. Nele se encontra presentemente o gabinete do Primeiro-ministro.

A Ordem estava organizada em “Línguas” (capítulos) que moravam em “auberges” (albergues de hospedagem, i.e. habitações para os membros). Ainda hoje se encontram resíduos deste conceito em campus universitários. Estamos a pensar nas “nationen” escandinavas e nalgumas residências universitárias parisienses.

Na catedral, a cada uma das “Línguas”, foi entregue uma capela junto aos corredores laterais da nave. Competiam entre si na ostentação das respectivas capelas ricamente decoradas.

É longa a história da Ordem. A sua origem remonta à época das cruzadas (1113), quando o monge italiano Gerardo fundou um hospital para cuidar de peregrinos no mosteiro de São João de Jerusalém. Foram os comerciantes de Amalfi e Sorrento que controlavam o transporte de peregrinos para a Terra Santa que financiaram o projecto. A nova “Ordem Hospitaleira” adoptou a cruz de oito pontas de Amalfi para seu emblema. Mais tarde, acrescentou a função militar à vocação assistencial. Esteve sediada na cidade sagrada da Palestina até ao fim do século XIII, quando os muçulmanos a conquistaram. Após a queda de Jerusalém, teve Chipre por base durante uma vintena de anos, ao que se seguiu o estabelecimento em Rodes, onde permaneceu por mais de 200 anos. Em 1522, os otomanos também a escorraçaram desta ilha.

Depois de um período sem território fixo, a Ordem teve de escolher entre Trípoli (Líbia) e o arquipélago maltês. Em 1530, aceitou Malta. O imperador Carlos I ofereceu-a em troca do pagamento simbólico de um falcão vivo como tributo. Resistiu de novo aos turcos durante o grande cerco de 1565 e fundou a cidade de Valeta. Nos séculos XVII e XVIII, com a diminuição dos ataques otomanos, caiu em declínio. Napoleão chegou em 1798 e enganou os Cavaleiros que foram forçados a abandonar definitivamente Malta. Embora sem território, na actualidade, reivindica o estatuto de estado soberano e dedica-se sobretudo à acção humanitária e à defesa do catolicismo.

É curioso, mas a chamada Cruz da Ordem Soberana não aparece na insígnia oficial da República de Malta. A bandeira tem duas metades verticais: branca e vermelha, com a “Cruz do Rei Jorge” no canto superior esquerdo, junto ao mastro.

Durante o Blitz de Londres, o Rei Jorge VI tinha criado a “George Cross” para honrar actos de bravura. Em 1942, O povo de Malta foi condecorado com esta medalha em reconhecimento da inabalável resistência aos bombardeamentos pelas forças alemãs e italianas. Malta sofreu 154 dias de bombardeamentos constantes. Em comparação, a capital britânica contou apenas 57.

A caminho do aeroporto, perguntámos ao motorista do táxi o motivo que levou a República a usar uma condecoração do tempo da monarquia colonizadora. A resposta foi imediata: “Em primeiro lugar, porque a ganhámos e, em segundo, porque nenhuma outra nação foi premiada com ela”.

Gente de espírito agudo. Tanto os cavaleiros de outrora, como os actuais malteses que não apagaram nem as cruzes nem a Ordem da sua herança cultural.

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