SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 15 Junho 2021, 20:33

A República dos Malteses

Existem pelo menos dois significados para o substantivo “maltês”. A brincar, temos por hábito aplicá-lo aos antigos companheiros da escola primária. Nesse tempo, éramos todos matreiros e alarves. Em geral, refere-se evidentemente aos naturais ou habitantes da Ilha de Malta.

Em Outubro, fomos visitar o mais pequeno e mais meridional estado da EU. Fica situado a menos de uma centena de quilómetros a sul da Sicília e a uns trezentos da Líbia. Uma cultura europeia apertada entre duas civilizações: a cristã e latina de um lado, árabe e a muçulmana do outro. Muitas nações deixaram a sua marca neste arquipélago que contem vestígios de numerosos conquistadores: fenícios, cartagineses, romanos, bizantinos, árabes, espanhóis, cavaleiros da Ordem de Malta, franceses e ingleses.

Cerca de 410.000 habitantes ocupam 300 Km2, o que resulta numa alta densidade demográfica. Obtiveram a independência em 1964 e proclamaram a república em 1974. Conduzem à esquerda, como os colonizadores britânicos. Têm por capital Valeta, uma cidade de contos de fadas que celebra o 450º aniversário este ano e em 2018 será Capital Europeia da Cultura.

O avião em que voamos desde Amsterdão aterrou com um baque ressonante. Parecia que as rodas estavam a arranhar o asfalto da pista. Quando desembarcámos, sentimos os derradeiros calores outonais já acompanhados de alguma humidade.

Calhou bem termos transporte assegurado pois havia alguma confusão com os táxis e outros carros que ocupavam o desorganizado parque de estacionamento. Sim, o trânsito é caótico. Imaginem a nossa surpresa quando o motorista que nos conduzia iniciou uma longa conversa ao telemóvel. Mas chegamos sãos e salvos ao hotel na Baía de St. Julian.

Visitar Malta é descobrir um país situado numa encruzilhada de civilizações e com um modo de vida menos agitado, quando comparado com o dos norte-americanos e europeus do Norte. Ao fim da tarde, o maltês, como os outros povos mediterrânicos, reúne-se com os amigos para tomar um copo. Ou apenas para conversar e desfrutar do ambiente.

Concentrámo-nos na costa nordeste. Passámos o primeiro dia a caminhar por Sliema. Esta vila, uma autêntica península situada entre a Baia de Spínola e a ilhota de Manoel (Manoel de Vilhena, um célebre grão-mestre) foi durante gerações uma pacata povoação de pescadores. Hoje, é um dos subúrbios mais importantes de Valeta. Desenvolvida na segunda metade do século XIX, tornou-se um destino de verão para os cidadãos abastados da capital. Embora ainda se possam encontrar moradias bonitas, a urbe moderna é um aglomerado de edifícios de apartamentos e hotéis. Algumas lojas fecham ao almoço, quiçá também para a sesta, reabrindo no final da tarde. No entanto, o verdadeiro espírito local faz-se sentir à noite, depois do pôr-do-sol, quando os paredões marítimos se enchem de multidões a passear, falar, apreciar os gelados italianos.

Efectuámos diversas visitas a Valeta, uma capital de contos de fadas a celebrar o 450º aniversário e que, em 2018, será Capital Europeia da Cultura. O nome vem de Jean Parisot de la Valette que, em 1565, se ilustrou na defesa contra os turcos otomanos. Os invasores foram repelidos por este nobre e por outros valentes membros da Ordem de São João, à qual dedicaremos um futuro apontamento. Com efeito, é impossível falar de Malta sem lhe fazer referência. Antes de aqui se estabelecer, já tinha passado por Jerusalém, Chipre e Rodes. Foi em 1530 que o imperador Carlos V (Carlos I de Espanha) cedeu a soberania de Malta e Gozo em troca de um falcão como tributo.

Após o bloqueio, foi construída a cidade para sede da governação. Mais tarde, os Cavaleiros de São João dedicaram-se ao policiamento do Mediterrâneo. Sobretudo à protecção dos navios mercantes e, bem assim, à libertação dos escravos cristãos. No século XVII, entraram em crise e alguns até acabaram por servir forças navais inimigas.

No século seguinte, Napoleão conquista as ilhas. Em seguida vêm os ingleses que as ocupam até à independência em 1964. Na apresentação audiovisual “The Malta Experience”, um documentário da história maltesa desde a descoberta até ao presente, tivemos a oportunidade de compreender as principais épocas históricas da ilha, incluindo os numerosos povos que aqui se estabeleceram.

Num domingo, de sol quente e céu azul visitámos Gozo, a outra ilha. É bastante apreciada pelos turistas, porém demasiado estéril a nosso ver. Aldeias antigas estão espalhadas por todo o território. Atravessámos de ferry o estreito que separa Cirkewwa a Mgarr (Gozo). Em Mgarr, deparámos com uma enorme bandeira portuguesa na esplanada de um restaurante no centro da vila. Tentámos indagar a razão de ser de tal fenómeno e fomos informados que se encontra lá desde a vitória portuguesa no Campeonato Europeu de Futebol.

Quase a concluir, podemos confirmar que, desde a acessão do arquipélago à UE em 2004, o país passou por uma rápida mudança sociocultural. Embora tenha legalizado as uniões do mesmo sexo e acabado com a detenção obrigatória de migrantes irregulares, há ainda um longo caminho a percorrer antes que Malta seja considerada uma sociedade aberta. Devido à posição geográfica, pertinho de Lampedusa e da costa norte-africana, a imigração ilegal tem aumentado dramaticamente. As tensões económicas e sociais que marcam o relacionamento com os imigrados são evidentes. Considerando a insularidade, a homogeneidade religiosa (96% de católicos praticantes) e a composição étnica e cultural dos malteses, os migrantes encontram imensas barreiras à integração. Embora o Inglês seja falado por todos, o maltês (língua semítica como o árabe e o hebreu) continua a ser imprescindível nas relações interpessoais e profissionais.

O prato nacional é a “fenkata”, coelho bravo cozinhado em vinho branco e condimentado com alho e louro. Preferimos os mexilhões em creme e o polvo grelhado. Para sobremesa, “pastizzi”, pastéis recheados com queijo branco e puré de ervilhas.

Não nos cansámos de admirar os dois quadros de Caravaggio, no oratório da Co-Catedral de São João. Também são dignas de atenção as pedras tumulares de mármore multicolor que embelezam o chão deste compartimento (Alguns dos sepultados com origem lusitana: Pereira Coutinho, Guedes de Guimarães, Afonso de Sernancelhe, Antonio Abreu, Souza e Almeyda). Sem esquecer os grão-mestres Manoel de Vilhena e Pinto da Fonseca.

Voltaremos ao tema.

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