SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 18:44

Innsbruck e Tirol

Íamos falar de outra região de onde regressámos na semana passada. Acontece, porém, que tínhamos alguns apontamentos sobre uma estadia na Áustria e resolvemos aproveitá-los.

O território deste estado é pequeno, mas as suas montanhas são majestosas. As paisagens austríacas fascinam milhões de visitantes de todo o mundo. Atraem numerosos esquiadores e alpinistas.

São predominantes as florestas de pinheiros e, acima dos dois mil metros, as árvores cedem o lugar a prados alpestres. Orquídeas, papoulas e edelvaisse dão-se bem a esta altitude. Adaptam-se ao frio, aos ventos e à neve. Em montículos compactos, as plantas alpinas desenvolvem-se agarradas ao chão. Como por milagre, na primavera, desabrocham logo no início do degelo para utilizarem da melhor maneira a curta estação de crescimento.

Não menos cativante é o envolvimento popular na preservação das tradições. Em qualquer festa, é comum ver mulheres em trajes regionais. Como na vizinha e irmã Baviera, o “dirndl” é obrigatório. Trata-se de um vestido ou saia com avental de cores garridas. Os homens usam “lederhosen”, calças de couro ou camurça que vão até aos joelhos. Por vezes, aos tornozelos.

Ainda na adolescência, tivemos a sorte de viajar nesta nação. Fomos direitinhos para Salzburgo, onde “Música no Coração” tinha sido filmado. Descobrimos um povo menos desagradável do que seria de esperar e fizemos longas caminhadas para apreciar o ambiente.

Além da cidade-berço de Mozart, o Tirol é a região mais visitada. A capital, Innsbruck, está impregnada de história. Só Viena a supera. O turismo é uma relevante fonte da receita nacional e é de vital importância para os habitantes do Tirol. Quiçá assim se explique a organização impecável e a lhaneza no comportamento em relação aos turistas.

Innsbruck, literalmente a ponte sobre o Inn, deve a sua existência e desenvolvimento a este afluente do rio Danúbio. A posição estratégica, no coração dos Alpes e no cruzamento com o eixo longitudinal entre a Alemanha e a Itália, transfigurou-a num autêntico nó de comunicação entre o Norte e o Sul do continente.

A situação geográfica e as ligações privilegiadas que a cidade manteve nos séculos XV e XVI com os Habsburg fundamentam este valor. Maximiliano I, em particular, desempenhou um papel decisivo ao escolhê-la para residência oficial e da corte. Transformou o burgo não só na capital do império austro-húngaro, mas também de uma vasta porção da Europa.

Na actualidade, esta aglomeração com cerca de 250.000 pessoas continua a ser uma das principais urbes alpinas. Aqui se realizaram, em 1964 e 1976, os Jogos Olímpicos de Inverno. Civilidade, natureza e cultura combinam-se à perfeição. Tem um esplêndido casco medieval, excelentes museus, pistas com neve abundante e, no verão, quilómetros e quilómetros de trilhos de montanha que começam nos arrabaldes.

Recomendamos o passeio de teleférico (3.300 metros) a partir do terminal de Hafelekar. Do cume, Hafelekarspitze, pode-se admirar a cordilheira Nordkette, que emoldura toda a zona de modo espectacular.

Mas não há bela sem senão. Durante a visita, lemos os cartazes para as eleições presidenciais. Os dois candidatos principais eram Norbert Hofer, engenheiro aeronáutico do Partido da Liberdade (FPÖ – Extrema direita) e Alexander Van der Bellen, professor de ciências económicas e ex-líder do Partido dos Verdes.

Como está acontecendo no resto da Europa, o enorme afluxo de imigrantes tem agravado as tensões sociais e o ultraconservador FPÖ não pára de crescer em popularidade. A frase preferida do seu dirigente é: “Aos que lutam pelo Estado Islâmico e violam mulheres, digo que este não é o vosso país”. Noutra ocasião, o FPÖ já tinha usado um slogan revelador: “Stopp der Überfremdung!Österreich zuerst ” (Alto à invasão de estrangeiros! Primeiro a Áustria).

Ao que responde o candidato da esquerda: “Eu sei bem como a Áustria sofreu depois da Segunda Guerra Mundial, causada pelas loucuras do nacionalismo”.

A eleição tem de se realizar outra vez e parece destinada a ser adiada de novo. A repetição da votação de Maio foi ordenada pelos tribunais. Houve anomalias na contagem dos votos por correspondência e o Partido da Liberdade contestou os resultados. Parece que a cola não preservava a confidencialidade dos boletins de voto. A repetição era para se realizar no dia 2 de Outubro. Agora, será a 4 de Dezembro. Como noticiou o jornal “Die Presse”, por motivos técnicos.

Há quem se lembre que, durante a invasão da Alemanha nacional-socialista em 1938, não houve resistência. Tampouco se apagaram as imagens do entusiasmo radiante dos austríacos sempre que Hitler os visitava.

Apesar de serem parentes dos alemães, têm um estilo de vida mais próximo do sul da Europa. Pelo menos, é o que dizem. As diferenças são particularmente pronunciadas em termos culinários: se eles são sobretudo bebedores de cerveja, estes preferem vinho. Até existe um tinto da casta “Blauer Portugieser” (português azul) que é demasiado adocicado para o nosso gosto.

Uma nota final: ficámos alojados num hotel tipo pousada, mesmo no centro. Nos quartos, restaurados de modo impecável, tinham pernoitado figuras conhecidas da história e das artes. No nosso, tinha sido o poeta Heinrich Heine. No da frente, o músico Paganini.

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