SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 08:01

Austríacos que quiseram ser suíços

Após Zurique e o Liechtenstein, fizemos uma visita ao Vorarlberg que é o mais pequeno estado federado da Áustria. Está situado no extremo ocidental do país e tem fronteiras com o referido principado, a Suíça e a Alemanha.

A História faz fronteiras e as fronteiras por vezes fazem história. Após o revés da Primeira Guerra Mundial, quiseram juntar-se aos vizinhos suíços. Em 1919, realizou-se um referendo e mais de 80% dos votantes pronunciaram-se a favor da adesão à Confederação Helvética. No entanto, esta foi travada especialmente pelos cantões franceses e italianos.

A semelhança entre a Suíça e o Vorarlberg é enorme. A pureza das paisagens, o confortável padrão de vida e até o linguajar local tecem laços indestrutíveis com os vizinhos dos cantões de Graubünden, St. Gallen, Thurgau ou Zurique. Os vorarlberguenses gostam de sublinhar que o dialecto alemão aqui falado parece-se mais como o “schwyzerdütsch” do que com a variante utilizada no resto do país, o que não é para surpreender considerando que Zurique fica apenas a uma hora de distância. Para chegar a Viena, gasta-se um dia inteiro ao volante.

Tanto os suíços como os povos de Vorarlberg são descendentes das antigas tribos germânicas que dominaram a Europa central no Século III a.C. Quiçá seja uma das razões para a diferenciação deste dialecto.

Somos porém da opinião que a principal característica comum deve ser os Alpes. Assim se compreende que este “Land” tenha apostado no turismo de montanha e a economia alpina seja dominante. As fazendas são propriedade familiar e em geral de pequena dimensão. A agricultura é intensiva e as colinas verdes servem de base à criação de vacas leiteiras e à produção de queijo. É digno de realçar que alguns agricultores ainda praticam a confecção de “Bergkäse” (queijo da montanha) igual ao dos suíços.

Toda a região constitui um exemplo típico da reverência que austríacos e suíços demonstram pela natureza e que os leva a procurar maneiras de viver em harmonia com o espaço ambiental. Ninguém perturba a dignidade das montanhas e das florestas, nem mesmo a população local. É um prazer notar como o edificado se integra na paisagem.

Vorarlberg é a região mais tradicionalista da nação. As pessoas têm brio na preservação de bastantes usos e costumes que são exclusivos daqui. Na área de Bregenzerwald, há aldeias que tentam manter, tanto quanto possível, uma existência calma como a dos antepassados.

Poderíamos formular uma hipótese sobre o conservadorismo da Áustria. E para a provar, começaríamos pela religião. É um país católico, à moda antiga. O catolicismo está bastante enraizado nos meios rurais e não é raro ver crucifixos nas empenas das edificações agrícolas ou inscrições devotas pintadas por cima dos portões. Por exemplo: “Agradecemos o bem que Jesus Cristo tem feito por nós”.

As concentrações urbanas são de pequena dimensão: Bregenz (a capital) tem 28.000 habitantes, Dornbirn 47.000 e Feldkirsh 31.000. Optámos pelo alojamento nesta última cidade por ficar no entroncamento de importantes vias que ligam quatro países e, bem assim, por ser a urbe medieval mais bem preservada do Vorarlberg. Foi fundada em 1218 e, mais tarde, vendida aos Habsburgos. Ficámos cativados com o charme da Baixa e com a vista para as montanhas.

O amor destes montanheses pela comida está bem patente na variedade de doces encontrados em qualquer “konditorei” (pastelaria). Os famosos doces e as sobremesas incluem um bolo de chocolate (sachertorte), o popular “gugelhupf”, pudim de chocolate com avelãs e “palatschinken”, ou seja panquecas recheadas com compota de frutos ou com queijo e cogumelos.

Os prados alpinos criam nichos ecológicos para uma variedade de flores de espécies que não se encontram em mais nenhum lugar. Entre outras, a edelvaisse, uma flor típica dos Alpes que ficou célebre com uma canção do filme “Música no Coração”. Trata-se de uma espécie bem protegida e é proibido colhê-la.

Compreendemos agora a irritação dos austríacos quando se lhes diz que são todos iguais. Um vienense poderá dizer que ele é tão diferente de um compatriota do Vorarlberg como o vinho branco é diferente do tinto. Um cidadão do Vorarlberg concordará de imediato. No entanto, ambos afirmarão sem rodeios que são austríacos.

Já no comboio com rumo ao Tirol, lemos numa brochura que a produção regional por cabeça é de 31.000 euros, 8% mais elevada do que a média nacional. Estes dados mostram que o Vorarlberg é uma das áreas mais ricas do mundo e a qualidade de vida é das melhores.

Só falta a esta gente um António Costa e “sus muchachos” para resolverem qualquer “caso” governamental. Com uma ajudinha da comunicação social do regime, ficaria tudo “devidamente encerrado”. Então sim, a população do Vorarlberg viveria num absoluto paraíso terreste. Jamais votaria para se juntar à Suíça.

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