SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 01:40

Encontro em cheio dos “malteses da escola”

A chuva não arredou pé, mas não arruinou a reunião dos “meninos da escola”. Como se verificará, arriscamos confirmar que foi um dos nossos almoços-convívios com maior êxito. Num ano já marcado por vacas voadoras, optimismos arrebatados, afectos pacóvios e outras palermices que por aí virão, este terá sido, modéstia à parte, um dos eventos mais genuínos de 2016. Ficará nos anais da “loja” dos antigos alunos dos professores Oliveira e Silva Paiva.

Tão serenos como gatos a dormir ao sol, estes “atletas” reviveram o passado colorido como se jamais tivessem deixado a vilória sossegada que era Torres Novas.

Embora estejamos em pleno Ramadão, não sentimos inspiração para efectuar uma pesquisa no Alcorão. Os muçulmanos que nos desculpem. Conhecemos melhor o Novo Testamento e é dele que retiramos o seguinte: “Toda a árvore boa dá frutos bons, e toda a árvore má dá maus frutos. A árvore boa não pode dar maus frutos, nem a árvore má dar bons frutos” (Mt. 7, 17-20; ver. 3, 10; Lc. 6, 44). Deve ter sido o Padre Búzio, ou talvez o Padre Saraiva, quem tentou ensinar-nos esta lição. Decorridas cinco ou seis décadas, acabámos por compreender o seu significado. Mais vale tarde do que nunca.

Ora bem, se esta malta continua rija de corpo e de espírito é porque as árvores-mátrias (as educações dadas pelos professores Silva Paiva e Oliveira) eram boas. Haverá quem não partilhe esta opinião. No entanto, parece-nos ser evidente que nada vem do nada e que o presente e o futuro estão ancorados no passado.

A pensar nisto, no dia 7 de maio, levantámo-nos antes dos melros andarem à caça das minhocas. Corremos para o comboio e, no Cais do Sodré, encontrámo-nos com o Arquitecto Branco Ló que nos deu boleia e com quem revivemos memórias e personagens torrejanas. Há dois anos que não víamos este amigo que fez o projecto do estádio municipal. “Pro bono” público, diga-se de passagem. Outras épocas, outros cidadãos.

Trocávamos os cumprimentos da praxe, na Praça 5 de Outubro, quando deparámos com o A. Bairrão Pinho, um antigo vizinho cujo pai, o Sr. Manuel Simões Pinho, passava sempre à mesma hora na Travessa da Hortelosa. Vinha ou ia para a Câmara onde era funcionário distinto. Além de nos ter dado a alegria de o poder abraçar, também nos ofertou uma cópia fac-similada do livro “A Revolta de Torres Novas”, da autoria do Sr. Pinho.

Da antiga praça das hortaliças fomos para a do peixe. A meio-caminho, um grupo de “meninos” passou pelo estabelecimento do Sr. João Espanhol para lhe dar os parabéns, pois festejava o 87º aniversário nesse dia. Acompanhado à viola pelo João Carlos Lopes, agradeceu com um bolero do trio Los Panchos: “Quizas, quizas, quizas”.

Antes de se chegar ao Restaurante Mário Alturas que serviu um repasto saboroso e onde os convivas falaram de tudo e de nada, realizou-se uma segunda paragem. Desta vez na antiga Praça do Peixe, para ver uma exposição de fotografias tiradas nos finais do século XIX e princípios do século XX pelo lapense Cipriano Trincão. Identificaram-se alguns lugares hoje bastante modificados, mas que sobreviveram nas lembranças dos nossos tempos de criança. Porém, o que o rapazio mais apreciou foi a presença de dois carrinhos de ladeira que o Sr. Benjamim Paiva, cunhado do Luís Ribeiro, construiu como se fossem BMWs. Como se pode constatar na foto, houve quem se oferecesse para conduzir estes bólides no próximo Rally de Monte Carlo. Pessoalmente, também foi com imenso prazer que saudámos os gémeos Ribeiro e o Sr. Manuel Piranga, ex-presidente da Assembleia Municipal. Torrejanos exemplares na dedicação à nossa terra.

Para sobremesa, o José Augusto Pedro fez um “improviso” referindo cada um dos comensais. O Jorge Pinheiro, major-general da brigada musical, deliciou-nos com uns fadinhos como só ele sabe. Teve réplicas nas vozes do José Júlio Baltazar Farinha e do José Carlos Nicolau. O Sousa Alves, desculpou-se porque não canta em anos bissextos.

O Jorge Pinheiro, uns dias após a assembleia conciliar, redigiu um poema intitulado “Saudações Primárias”, do qual respigamos as seguintes estrofes:

“Sábado molhado mas bem animado // Entre comensais já velhos demais // Meninos na escola de há sessenta anos // Sorrisos carecas, barrigas redondas // Poemas, cantigas baladas e fado // A recordarem a brincadeira // Fugindo à polícia, às rondas, // Naqueles carros de ladeira // Com rolamentos nas rodas // agora recriados e bem-feitos à maneira. // Sábado de Maio com gente madura // Silvas e Oliveiras, ninguém os atura // […] // E brindámos unidos à boa amizade, // E ali conviveu-se e sentiu-se verdade. // Para a Alicinha, filha do Oliveira, // Abraços e beijos da malta porreira… // Sábado molhado por dentro e por fora // Para o ano há mais // Ninguém vai embora.”

Merecia uma medalha, porém o agraciado com a Ratoeira d’Ouro 2016 foi o Joaquim José Vieira (Careu). Ao Isidro Bento, foi atribuída a “puck/rondelle”, um disco de borracha dura indispensável para o próximo “derby” de hóquei nas águas geladas do rio Almonda. O José António Soeiro, outro desportista e perito em artes piscatórias, recebeu um lápis “Faber-Castell” que antes tinha sido ofertado pelo presidente da República Federal Alemã. Muitos de nós, aprendemos a escrever com lápis desta marca. No ano 2000, o Soeiro já tinha sido galardoado com um pífaro aquático.

Honrou-nos a participação da filha do Carlos Gutierrez e da Alice, filha do Professor Oliveira e prima do Carlos. Foram poucos os “habitués” que estiveram ausentes. O Dagoberto Formiga e o Chico da Casa Nery apresentaram atestados médicos, em papel selado e com as assinaturas reconhecidas pelo notário. Como sempre, o pelotão organizador foi impecável.

As estatísticas revelam que a longevidade média dos homens portugueses anda pelos 77 anos e a das mulheres ronda os 84 anos. A expectativa de vida aumenta uns três meses por ano. Em breve, poderemos celebrar o centenário. Entretanto, louvamos estes “meninos” que continuam felizes, mantendo o contacto e recordando os dias em que compartilharam bancos e carteiras da Escola Primária.

Estes frutos de boas árvores acabaram por ser alguns de nossos melhores amigos.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados