SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 08:24

Decadência urbana…em Detroit

Encontrámos um “postal turístico” no “Jornal Torrejano”, aquele que agradece ao executivo municipal de maioria absoluta socialista nunca lhe ter atribuído uma medalha de mérito (3.Jun.2016, p.5). Vinha enriquecido com a foto de um canto do Largo da Botica e esclarecia o seguinte: “O que aparenta ser o monte de lixo de uma parte da parede que caiu continua firme, há uns valentes meses, para espanto de quem passa: nem trovoadas nem ventanias conseguem ser mais fortes que a incompetência camarária. Parece impossível? Parece. Numa das principais artérias do centro de uma cidade, um miserável monte de lixo ali permanece, sem causar remorsos nem vergonha a quem de direito”.

Quiçá tal pecadilho esteja associado à penúria de capital provocada por um diferente problema que Inês Vidal também menciona no referido semanário: “deverão sair […] dos cofres do município 1.600.000€ para a Lena Construções. A segunda e última prestação daquele imbróglio, em que ALGUÉM nos enfiou, que é o Almonda Parque” (p.6). O sublinhado é nosso.

Estivemos há uns meses em Detroit, a cidade mais antiga do Midwest, fundada em 1701. Está situada entre os Lagos Erie e St. Claire. Uma localização que a transformou no “centro do progresso”. Nas margens do Almonda, os vendedores de ilusões também declararam o mesmo.

Durante décadas, foi uma das grandes cidades americanas e uma das maiores aglomerações industriais do planeta. Conjugue-se o verbo no pretérito, pois no presente é um “case study” de desaire urbano. Um colapso total.

Em 1950, quando era conhecida por Motor City, era o coração mundial da construção de veículos motorizados e tinha dois milhões de habitantes. Meio século mais tarde, a população mal ultrapassava o meio milhão e cerca de nove em cada dez habitantes eram afro-americanos. O trambolhão resultou da convergência de diversos factores. Entre outros, o aumento da carga fiscal, as pressões sindicais, a generalização do consumo de drogas, vandalismo, criminalidade, redução de investimentos privados, desemprego e racismo. E forçoso será perguntar se não estaremos a ver o que espera bastantes centros urbanos ocidentais. Sejam eles megalópolis no estilo de Detroit ou pequenos burgos como Torres Novas.

Não resistem à competição, nem sabem reinventar-se. Nesta metrópole do Michigan, o declínio das indústrias locais e os tumultos raciais de 1960 reduziram drasticamente a população. Milhares de famílias de origem europeia que foram viver o “American dream” nos subúrbios, com colossais “shopping centers” na confluência das principais vias rodoviárias. O pequeno comércio acompanhou o êxodo. Os impostos municipais eram menores e não havia tanto crime. Mercearias, padarias, farmácias, sapatarias, restaurantes e supermercados desapareceram por completo. Aprofundando-se desta maneira o fosso entre o centro arruinado e os subúrbios. Tal como em Torres Novas, houve quem ganhasse uma pipa de massa com este processo.

Com a forte diminuição do número de contribuintes, desapareceu o dinheiro para pagar os serviços públicos. O governo federal fez esforços enormes para restaurar o equilíbrio. Gastaram-se milhares de milhões. Tudo em vão, diga-se de passagem. Os ambiciosos projectos de agricultura urbana, uma alternativa verde à industrialização, não convenceram ninguém. Fica a eterna questão: que rumo pode tomar uma cidade pós-industrial com pouca viabilidade para o futuro?

A natureza reconquistou diversos quarteirões citadinos. Bandos de faisões, veados e até raposas não faltam. Será este um exemplo a seguir? Já imaginaram como seria o casco histórico de Torres Novas metamorfoseado numa imensa horta? Então é que poderíamos diferenciar os Napoleões de meia-tigela dos Nabo-leões. Criar quintas urbanas nos vastos terrenos antes cobertos de fábricas poderia traduzir-se nalguns empregos e talvez constituísse uma boa utilização de áreas abandonadas.

Os medos e as mentalidades saudosistas, tanto de Detroit como de outras urbes em decadência, definem a mentalidade colectiva e podem criar uma fatalidade. A quimera de que se pode voltar ao passado. Porque não se pode. Essa aspiração jamais se concretizará. Acabaram as indústrias tradicionais. As economias nacionais e globais passaram por uma alteração radical. Hoje, fabricam-se carros mais baratos em todos os continentes. A fiação de tecidos, as destilarias de álcool e a metalurgia saíram da cena torrejana.

A mudança mais radical para estabilizar e, em seguida, reconstruir a cidade, seria fechar seções da mesma. Depois, era convencer as poucas pessoas que ainda vivem em zonas em vias de despovoamento a mudarem-se para áreas com mais condições de habitabilidade. Constatar-se-ia o óbvio: muitas ruas e travessas não podem desempenhar as funções actuais. Em Detroit, o município mandou demolir três mil casas em ruínas, parte de um programa que acabaria por arrasar dez mil prédios vazios.

Apesar das tentativas para superar a imagem de decomposição urbana, a dura realidade é essa: deixou de funcionar. Uma verdadeira selva. Redondamente vergada pela dívida, admitiu a derrota e, em 2013, abriu a maior falência municipal não só na história dos EUA como do mundo inteiro.

A palavra Detroit transformou-se num topónimo que, à semelhança de Pompeia, Hiroxima ou Dresden, também significa o fim traumático de uma era. Assim é com a Motor City. Apesar de montanhas de dólares aqui enterrados, segue em coma profundo.

Embora em menor escala, também existem cidades portuguesas em que os autarcas criaram calotes de dimensão estratosférica. Qual a causa? Incompetência? Irresponsabilidade? Mania das grandezas? Ou talvez outros “factos” divulgados algures e que não seria de bom-tom mencionar neste semanário.

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