SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 12:22

Os políticos europeus estão a chegar a um extremo

À excepção dos “eleitos”, na maioria dos casos por listas partidárias, e dos seus pares na máquina burocrática, os cidadãos da EU sentem-se atulhados até ao pescoço. O centralismo de Bruxelas não funciona, as economias do sul da Europa estão em colapso, centenas de milhares de pessoas manifestam o seu descontentamento em todo o continente. E, tal como Nero a tocar harpa enquanto contemplava Roma a arder, os defensores do projecto europeu não tiram senão uma conclusão: é preciso mais Europa

Mais uma vez, Angela Merkel vem na capa da revista “Der Spiegel” (19.03.2016). Uma frase acompanha a sua imagem: “Aufstand der Wutbürger: Ihr da oben belügt uns doch alle”. Em português, “A raiva dos cidadãos: Lá de cima, ela continua a enganar-nos a todos”. Isto num dos principais órgãos da imprensa mundial. A propósito da visão parcial da chanceler alemã, seria útil que ela lesse o que Frei Bento Domingues recordou numa crónica recente: “Existe, na Arábia Saudita, um campo de tendas espantosamente bem equipadas para 3 milhões de pessoas, utilizadas apenas durante 5 dias por ano, na peregrinação a Meca. Não é nenhum santuário. É uma residência” (“Público” 27.03.2016). Sim, o reino saudita tem muito espaço vazio e, como os seus aliados do Golfo, imensos recursos financeiros que podiam facilitar o acolhimento de milhões de refugiados e outros migrantes.

Estávamos a escrever estes parágrafos quando lemos no “DN” (26.03.2016) que “o presidente francês, François Hollande, garantiu que a rede terrorista responsável pelos ataques está ‘prestes a ser aniquilada’”. Por certo que estas alucinações do descarado chefe do PS francês deixam os kamikazes islâmicos a tremelicar de medo! Os seus amigos do Qatar não importarão mais equipamento militar nem camembert de França.

Como se lia no “Público” (23.03.2016): “Bruxelas, a capital de facto da União Europeia, é também a capital do jihadismo na Europa”. E por aí adiante, com um extensíssimo etecetera. Adivinhe-se de onde vem uma parte do financiamento dos atentados.

Em fevereiro, o editorialista deste seminário já dizia que “vivemos num tempo de fragilidade. A Europa não encontra consistência nem rumo. Não sabemos para onde conduzir os destinos, nem orientação de percurso. Não descortinamos a saída. Os valores perderam-se no emaranhado da servidão. A vida afundou-se na penúria da razão. O serviço é a troca mais macabra do ‘quem dá mais’. Que nos resta?” (“O Almonda” 26.02.2016).

Quando, há cerca de dois anos, alguns governantes ainda estavam obcecados com a recepção de mais migrantes económicos de determinada geografia, o bispo de Mossul (terceira maior cidade do Iraque) advertia dizendo que os sofrimentos actuais dos cristãos no Médio Oriente eram “o prelúdio do que os Europeus e os cristãos ocidentais irão também sofrer num futuro próximo”.

Claro que temos de considerar estas afirmações no seu contexto, mas forçoso é reconhecer que as autoridades de certos países andam a nadar com tubarões. Escondem a verdade e não é raro que digam patranhas de bradar aos céus. Tentaram convencer-nos que os actos terroristas eram perpetrados por “lobos solitários” ou “indivíduos com problemas psicológicos”. Até ficamos emocionados com tantas desculpas.

Após jihadistas declarados terem cometido repetidos massacres, presidentes, ministros e responsáveis pelos serviços de segurança vêm-nos dizer que constavam nas listas da polícia. Por roubos, assaltos à mão armada, assassínios, tráfico de drogas e outros crimes no género. Assim dizem os governantes franceses, belgas e os bonzinhos do costume. Tão inho-inhos! Ora bem, se os nomes destes criminosos apareciam nos registos da polícia, um deles por assalto com uma kalashnicov, por que é que não estavam na prisão?

A Europa tornou-se uma utopia. Outra para a colecção. Estamos a pagar o preço do laxismo dos governantes europeus. Basta seguir a cronologia dos atentados para compreender o aumento do pânico. Somos governados por ineptos e estamos presos pelo medo. Está tudo de pés para o ar. Um erro fundamental foi a rejeição indiscriminada da ideia de identidade. A simbologia social e cultural do ocidente foi descartada e ainda estão por avaliar os novos horizontes mentais, as novas formas de vida. A diversidade devia enriquecer, como sempre enriqueceu, o continente. Porém, o quotidiano de milhões de europeus faz que eles se interroguem sobre estas aspirações. É triste, pois estamos a chegar a um extremo. Na lápide tumular da Europa por nós idealizada, já andam a gravar o RIP. Que “descanse em paz”.

As fronteiras sempre foram locais de separação, mas também de contacto e de intercâmbio entre diferentes culturas. Quase toda a Europa aprovou a eliminação das fronteiras. As convulsões migratórias e o terrorismo, ligados pelos mercados do pavor a baixo preço, produziram efeitos semelhantes. Agora, mesmo a Alemanha, que tinha feito uma abertura corajosa, teve de recuar, em conjunto com os países escandinavos, pondo-se a questionar o Acordo de Schengen.

É de bom-tom acreditar num “mundo sem fronteiras”. Infelizmente, isto está tudo ligado e não podemos esquecer o que os mídias divulgaram após as explosões na capital belga. Que “a marcha contra o medo tinha sido suspensa pelo burgomestre socialista de Bruxelas, apoiado pelo ministro do Interior, por questões de segurança” (“Le Monde”). Afinal de contas, o Senhor Medo é quem mais ordena.

Os políticos europeus têm os olhos vendados pelos egoísmos ideológicos e não querem ver o que se está a passar. Quando é que vão aceitar a realidade? O copo está cheio e vai entornar-se. Não se augura nada de bom.

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