SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 20:48

Telemóveis e telefones fixos

Presidíamos ontem à defesa de uma tese, numa sala repleta de alunos, quando um tlim-tlim irritante interrompeu a candidata. Parámos e, em seguida, o dono do telemóvel saiu para o corredor. Passados uns minutos, foi sentar-se de novo no mesmo lugar. Diversas pessoas tiveram de se levantar para o deixar passar.

Meia hora depois, repete-se a cena com uma senhora que por sorte ocupava uma cadeira junto à porta. Um membro do júri olhou para ver se reagíamos, mas optámos pelo silêncio total. Uma atitude mais eloquente e… prudente. O politicamente correto assim ordena. Arriscávamos algum insulto. Há gente que se dá ao luxo de dizer e fazer o que lhes dá na gana e se alguém teima em não aceitar esse comportamento, logo é apelidado de etnocêntrico, sexista, racista, fascista, estalinista ou portador de uma qualquer doença mental.

Já em casa, fomos dar uma vista de olhos pela imprensa regional. Ao ler a crónica de António Mário Lopes dos Santos em “O Riachense” online, retivemos as seguintes linhas: “Cada vez mais a dizer-se em contacto, cada vez mais universal: na realidade, um ser solitário carregando em teclas, ligado ao mundo por um ecrã polarizado, imóvel e solitário como o seu IPOD, navegando o que lhe chega dos milhares de dicionários de imagens, como se tudo fosse uma nova Bíblia revelada por algo ou alguém escondido” (25.02.2016).

Não podíamos estar mais de acordo com a sua opinião e é ela que inspirou o tema destes parágrafos, i.e. o mundo está a ficar de pernas para o ar. Restringir-nos-emos hoje ao uso dos telemóveis.

Para começar, admitimos o que bastantes leitores julgarão ser um grande defeito: não gostamos de telemóveis. Pertencemos à diminuta minoria de cidadãos que prefere fazer uma chamada usando o fixo. Os celulares, como dizem os brasileiros, tocam nas aulas, nos comboios, no cinema, no supermercado, nos bares, nas cerimónias religiosas e nos restaurantes. Recordamos um almoço com amigos num restaurante que estava à pinha. A dado momento, ouviu-se um tlim-tlim. De imediato, os comensais precipitaram-se para verificar se era para eles. E não é raro que os empregados lhes dêem mais atenção do que aos clientes.

Até há quem durma com o aparelho ao lado do travesseiro. É o que fazem muitos adolescentes e estudantes universitários.

A dependência está provada, como se uma droga se tratasse. Mesmo acordados, também as empresas de marketing nos bombardeiam com mensagens nem sempre honestas. Para não mencionar que esta utilização impele uma percentagem de utilizadores a usar uma linguagem menos educada. Já nos aconteceu, termos sido incomodados com pragas de carácter comercial ou propagandístico.

Mas é do ponto de vista da produtividade que estamos em presença de uma faca de dois gumes, de um utensílio ao mesmo tempo útil e nocivo. Por exemplo, quem o tem ligado e está a estudar, não se concentra na aprendizagem. Distrai-se com a mensagem e quando retorna à matéria de estudo não sabe onde estava. Como se costuma dizer, perdeu o fio à meada. Não aprende nada.

Tampouco podemos esquecer que o que se diz ao telemóvel não é mais confidencial do que o que se diz no fixo. São numerosas as agências governamentais e não-governamentais a gravar o que dizemos. É por este motivo que, num mundo de escravos das tecnologias de comunicação, há quem gostasse que a verdade fosse outra.

Por outro lado, não podemos viver na nostalgia do passado. É bom recordar que o mundo está em transformação constante e que nós também mudamos. Quiçá seja um desperdício de tempo lamentar essa infalibilidade.

É indiscutível que estamos a ficar mais controlados, tanto pelo Estado como pelo estado a que tudo isto chegou. E constata-se com facilidade que o objectivo de Esquerdas, Direitas, Centros e respectivas metástases é chegar ao topo do poleiro do quero-posso-e-mando.

Nas redes sociais, portam-se como se fossem adolescentes. Andam a perorar sobre a ética que exigem aos outros. Contudo, nestas ordens de “illuminati” e “illuminate” apenas se aplica a ética-republicana. Eles e elas sabem o que isso significa. Não ousam dizê-lo em público.

Estamos todos envolvidos em redes. De comunicação, mas também de controlo. Com ou sem telemóvel, mesmo quando nos limitamos à rede fixa.

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