SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 06:42

Barcelona, capital da Catalunha

Na lista dos países pelos quais sentimos grande atracção, a Espanha ocupa lugar de destaque. Até recente data, era considerada uma anormalidade entre as nações europeias e havia quem afirmasse que “a Europa começava nos Pirenéus”.

Nos tempos do colégio, já viajávamos pelas diversas regiões da península e, na universidade, estudámos castelhano e familiarizámo-nos com a literatura escrita nesta língua. Conservámos esse interesse, pois ainda hoje gostamos de ler sobre o mundo hispânico e seguimos diariamente a imprensa do país vizinho.

Há dias, numa cavaqueira entre colegas, foi abordado o actual impasse governamental ibérico e houve quem comparasse a autonomia de que gozam as regiões do Reino Espanhol com a da província canadiana do Quebeque.

Em seguida, saltou-se de Montreal para Barcelona, centro do espírito independentista no nordeste ibérico. Por coincidência, tínhamos visitado a cidade em Janeiro. Uma redescoberta, passadas umas décadas. Só reconhecemos algumas atracções na Baixa, incluindo a célebre estátua de Cristóvão Colombo no topo de uma coluna de 60 metros, no local onde as Ramblas terminam no Port Vell. O dedo a apontar para o mar. Por trás, o Montjuïc.

Como é do conhecimento dos leitores, Barcelona é a segunda maior cidade da Espanha. Contudo, soube manter uma dimensão humana. Basta caminhar pelas ruas e praças, percebe-se logo que a população é heterogénea, descontraída e de mentalidade aberta. Um cadinho em que combinam catalães, espanhóis e emigrantes. Aqui, embora activos e trabalhadores, os habitantes não têm o ar estressado de Madrid ou Bilbau.

Não é um lugar dado a exibicionismos baratos. Este antigo posto avançado do império romano, não têm a vaidade arrogante de Paris nem a sofisticação snobe de Londres. Barcelona é Barcelona. Por isso, o seu modelo de vida urbana tornou-se o destino mediterrânico mais procurado pelos turistas.

A sensação esmagadora é que esta é uma cidade que se sente bem na sua própria pele. Os barceloneses são intransigentes na protecção da sua identidade cultural e do património material sem deixarem de ser simpáticos e acolhedores.

De facto, uma parte significativa da autopromoção da cidade resulta da sua identidade política e cultural. Basta mencionar o orgulho linguístico, a conservação de tradições multisseculares, a gastronomia de vanguarda e o desporto. Tudo faz pensar que não se está mais na Espanha, mas sim noutra nação. Diz quem sabe que a história da Catalunha se traça desde o século IX. Na actualidade, são cerca de 6 milhões de pessoas em quatro províncias: Barcelona, Lleida, Girona e Tarragona. Mais de 4,7 milhões na área metropolitana.

Há concentrações urbanas em decadência, mas enquanto outras não ousaram mexer-se, Barcelona reinventou-se. Tomou partido da sua herança marítima medieval e tornou-se cidade olímpica. Após o abandono punitivo da era de Francisco Franco, transformou-se numa verdadeira Meca das artes.

No que toca à arquitectura, a estrela do espectáculo é Antoni Gaudí. As suas obras extravagantes pontilham a cidade. O visitante fica de boca aberta, paralisado pelo excesso de detalhes. Ainda arregalamos os olhos quando recordamos a Casa Milà no Passeig de Gràcia ou a Casa Batlló, um bloco de apartamentos por ele renovado no início de 1900. O mesmo acontece com o incrível Templo Expiatório da Sagrada Família. Voltaremos a Gaudí e talvez a outros nomes sonantes do movimento “modernista”: Lluís Domènech i Montaner,  Josep Puig i Cadafalch e Santiago Rusiñol.

Em geral, o legado artístico é estupendo. Inclui galerias com trabalhos de famosos artistas como  Joan Miró e Antoni Tàpies. E outros, como Pablo Picasso, que aqui viveram.

Uma das nossas zonas preferidas é o Bairro Gótico. Chegar lá é fácil, mais difícil é encontrar o caminho para sair. Ali se acumulam museus excêntricos, pátios medievais, palácios renascentistas e ruínas romanas. Não faltam lojas do antigamente, nem sequer reminiscências da Guerra Civil. Como é o caso das marcas de balas na parede da Igreja de Sant Felip Neri.

Frequentámos um dos restaurantes de vanguarda para confirmar a criatividade da cozinha catalã. Apenas não concretizámos o desejo de ir ver um jogo no Camp Nou. Gostaríamos de sentir o que é estar com outros 100,000 adeptos do incomparável FC Barcelona. Fica para outra oportunidade.

Íamos concluir com alguns comentários sobre o papel da cidade-condal na desintegração da Espanha. Porém, como disse Wittgenstein, daquilo que não se deve falar mais vale ficar calado.

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