SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 14:37

O efeito dominó das bancarrotas

Ao contrário do que nos tentam convencer, o dinheiro que tanto custa a ganhar, está cada vez menos seguro nos bancos. Não é preciso recuar muito para recordar as lições da Argentina, do Chipre, da Grécia, etc. etc. Em Portugal: BPN, BPP, BES, Banif. Como vem avisando a imprensa estrangeira, outros irão implodir. A fragilidade é enorme e por isso não os mencionamos. Os nomes são conhecidos de milhões de portugueses que, nalguns casos, ainda acreditam no que os políticos dizem. Tudo bem orquestrado na “ormetà” mediática que não hesita em propalar versões invertidas da realidade. Só historietas e fantasias.

Não existem para proteger o dinheiro dos depositantes, muito menos dos accionistas. Não são geridos por princípios éticos, mas sim por “artistas” do depauperamento da nação. A credibilidade do Costa é zero. Não foi ele quem afirmou que o BES era um banco sólido? Até ver, referimo-nos apenas ao governador do Banco de Portugal. Ele e o homónimo desculpam-se sempre com a conjuntura. A culpa é dos outros.

Confirmámos há dias o que não queríamos acreditar. Visto que as caixas do multibanco apenas distribuem notas de 20 e 10 euros em Portugal, julgámos ser directiva europeia. Não é. Em diversos países, pudemos escolher as denominações das notas a levantar. Compreendemos melhor a razão de ser desta diferença quando, quase na porta de embarque do voo de regresso, reparámos que tínhamos um número de notas de 5 e 10 euros na carteira. Dirigimo-nos a um quiosque de câmbios e perguntámos se nos trocavam as referidas notas por uma de 50. O funcionário, de modo simpático, respondeu que não podia. O Banco de Portugal não autorizava a troca de notas pequenas por grandes.

Faz sentido. Receiam que os portugueses, tal como outros cidadãos de países com bancos falidos ou em vias de falência, acumulem as poupanças debaixo do colchão. Jamais reconhecerão tratar-se de uma dificuldade associada aos estados cleptocratas, “governados” por políticos corruptos que têm por hábito pôr as mãos nas reservas depositadas em instituições financeiras.

Há quem consiga levantar dinheiro antes da tormenta. Acontece. Como pudemos ver no caso do Banif e lemos a propósito do terceiro maior banco italiano: “O Monte Paschi tem estado mesmo a cair a pique, com quedas consecutivas de 15%, 14,4% e 18,2% nas primeiras três sessões desta semana. E já há notícias de uma corrida aos depósitos por parte dos seus clientes”. Tal como na Grécia, no verão passado.

O mesmo se adivinha, quando deparamos com notícias deste estilo: “Sector bancário português continua a estar entre os que mais perdem perante a estratégia de fuga ao risco adoptada pelos investidores. A dívida pública também está a ser pressionada” (“Público” 21.01.2016:22). E mais: “Na dívida pública a dez anos, as taxas de juro praticadas nos mercados secundários voltaram a aproximar-se da barreira dos 3%. Desde o início do ano, este indicador subiu 0,4 pontos percentuais, um valor claramente mais elevado do que os 0,065 pontos da Itália e que os 0,01 pontos da Espanha”. Se o pessimismo reinou no Fórum Económico Mundial de Davos, imagine-se a inquietação de quem tem por obrigação avaliar o governo de António Costa, sem as ferramentas necessárias para responder à recessão.

Pensar que Vítor Constâncio, antigo secretário-geral do PS (1986-89), é vice-presidente do Banco Central Europeu e responsável pela supervisão bancária, é de arrepiar os cabelos. Quando passou pelo BdP fez muitas asneiras, mas ganhava mais do que o presidente da Reserva Federal americana. Sem contar as mordomias.

Os mercados financeiros são manipulados — veja-se como operam em Portugal! —e a agência reguladora fecha os olhos, impotente para fazer cumprir a lei. É público e notório. O que sabe fazer com perfeição é sacudir a água do capote.

Com frequência, ouvimos dizer que o declínio da produção industrial, das pescas e da agricultura foi neutralizado pela dilatação da “economia de serviços”. Haverá quem associe tal expressão aos serviços de alta tecnologia, à Nova Economia. Contudo, convenhamos que empregos em restaurantes, hotéis, bares e tuk-tuks não resolvem o problema dos jovens com qualificações superiores que, aos milhares, correm pelas suas vidas e vão para fora em busca de um futuro melhor. A não ser na função pública, não há empregos sem investimento.

O “Expresso” (13.01.2016) dizia o seguinte: “Grandes investidores estão de pé atrás em relação a Portugal. Actualmente e no futuro mais próximo, dificilmente voltam a financiar bancos portugueses. Emissões de obrigações que estariam a ser preparadas tiveram de ser adiadas”. E prossegue: “A decisão sobre o Novo Banco abriu uma caixa de Pandora.”

“É visível a reacção negativa à decisão do Banco de Portugal de transferir para o BES mau cinco emissões de obrigações do Novo Banco. Não há quem empreste”, disse ao Expresso um responsável de uma grande casa de investimento.

Vejamos dois exemplos. Uma acção do BCP vale cerca de 0,03 (três cêntimos), em 1997 valia 2,40 (dois euros e quarenta cêntimos). Por outras palavras: se um investidor tivesse comprado mil acções nessa data, teria pago 2.400 euros. Agora, as mesmas mil acções do BCP apenas valem 30 euros. Ninguém duvida que, no futuro próximo, os bancos portugueses não vão conseguir emitir divida ou fazer aumentos de capital no mercado. E também aproveitamos para mencionar que há obrigações do BCP cujos proprietários não as podem negociar. Ordens do BdP! Onde é que o país vai obter fundos para investir? Só pagando um prémio bastante elevado.

Parece que o país está a afundar-se num mar de podridão. Como escreveu Hannah Arendt, “aqueles que optaram pelo mal menor, tendem a esquecer muito rapidamente que escolheram mal”. Destruíram o sistema financeiro português. Ele encontra-se em estado avançado de decomposição.

Para música de fundo, sugerimos o “fado corrido”.

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