SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 16:43

Principia cedo a comercialização do Natal

Natal é o frio, os céus cinzentos, as pessoas no corre-corre das compras e a fingir que estão felizes. Invernia, friagem, chuva, vento e dias pequenos.

Faltavam uns dias para a despedida de Novembro e, à entrada de um centros comercial da capital canadiana, surpreendeu-nos ver a primeira guirlanda verde com laços vermelhos e dourados. Em seguida, outra. Bastantes mais.

Por instantes, fomos levados a pensar que nos tínhamos atrasado com a preparação para as festividades de fim de ano. Por que será que as decorações aparecem cada ano mais cedo?

Natal! A época que faz a diferença entre as perdas e os lucros dos lojistas, mas que também força numerosos consumidores a hesitarem na consulta das respectivas contas bancárias. Ultimamente, esta loucura anual parece ter enveredado por um rumo muito triste. Antes, abrangia umas duas ou três semanas. Um mês no máximo. Agora, começa em Novembro.

Recordamos quando éramos jovens e a música de Natal se ouvia nos centros comerciais. De início, encantava. Era a abertura perfeita para o alvoroço natalício. Passada uma semana, já se tornava aborrecida. Sempre a mesma. Repetia-se, era obsoleta. Acabava por incomodar.

Também os vizinhos da nossa rua têm os seus esquemas de decoração terminados logo a meados de Novembro. E, na “mercearia” do canto, até ouvimos uma mãe repreender o filho com o antiquado “se não te portas bem, o Pai Natal não te dá nada”.

O alargamento da estação é um exagero. Um abuso das crianças e dos pais. De toda a gente. Um escândalo!

Quem se der ao trabalho de reflectir um pouco, chega à conclusão que em vez do Natal se centrar na família e na fraternidade, estão a sobrecarrega-lo de pressão e consumismo.

Não tenhamos dúvidas que ao alargar a temporada, prolongam tanto o consumo como a avidez de ter e receber. Um desastre em relação ao que devia ser o espírito da época. As preocupações com presentes, festas e comezainas apenas aumentam a ansiedade geral. Sofrer duas semanas de tensão é mau. Mais de um mês é ridículo.

De facto, o início prematuro das celebrações apenas encoraja a ganância e os gastos frívolos surripiando tempo que devia ser dedicado a causas mais nobres.

Quiçá se possa fazer algo. Talvez o Natal precise de se assemelhar mais ao feriado norte-americano da Acção de Graças (Thanksgiving). Convive-se com familiares e amigos. Compartilha-se o prazer e a alegria. Agradece-se o que há para agradecer, sem que as atribulações materiais desempenhem um papel de relevo.

Seria bom que fosse tudo repensado. Exceptuando a mensagem cristã que é essencial para os crentes, muito deve ser revisto. A começar pela inflação de prendas. O simples acto de oferecer um presente é mais importante do que o valor dele. Temos colegas que distribuem pelos amigos vinho que fazem em casa. Uma secretária preparava deliciosos bolos que dava na véspera da universidade fechar para as férias. O que se reveste de interesse é valorizar o aspecto humano.

Em Portugal, temos um novo Pai Natal, baixote, gorducho e de sorriso mija-mansinho. Promete mundos e fundos. Vamos ter um esquema financeiro em pirâmide, de tipo D. Branca. Em breve, os anõezitos vão atirar pedras ao Papá e as renas vão exigir maior provisão de feno.

No inverno do nosso descontentamento, deixemo-nos de exageros. O Menino-Jesus só nasce a 25 de Dezembro. Que mande o bom senso!

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