SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 16:42

Todos os Santos e Finados

Aproxima-se o Dia de Todos os Santos. Sucede-lhe o de Finados ou dos Fiéis Defuntos. Na Idade Média, era chamado “Dia de todas as Almas”. Se os sacerdotes católicos celebram o primeiro com paramentos brancos, para o segundo a cor é roxa. Sem necessidade de um tratado de simbolologia. Na nossa juventude, íamos à Feira dos Santos, no Rossio de São Sebastião e, no dia seguinte, visitávamos as campas dos familiares falecidos.

É tempo de memórias melancólicas. Uma óptima desculpa para fazer uma pausa e olhar à volta. Olhar em particular para a frente, em ritmo de expectação inconsciente. As folhas secas são levadas pelo vento e sentimos como tudo o que vive é efémero. Chega-se com facilidade à conclusão de que a existência humana e a natureza seguem percursos semelhantes. Implacáveis.

Sem dúvida que um dos momentos mais difíceis da vida é o falecimento de um familiar ou amigo. Quando assim acontece, invade-nos uma enorme tristeza e uma profunda desolação. Jamais será possível rever essa pessoa.

Vem isto a propósito de um correio electrónico que o Luís Ribeiro nos enviou há algumas semanas. Comunicava a perda do nosso companheiro Eduardo Galamba de Sá Pires. Dizia ele que a má notícia era esperada, visto o agravamento do seu estado de saúde.

O Eduardo tinha frequentado connosco a escola primária, no Largo do Salvador. Como vivia por trás do Hospital da Misericórdia, descíamos diariamente, ao fim da manhã e ao meio da tarde, a ladeira que dá para a Levada. Ele prosseguia a caminhada na direcção das Tufeiras. Nós ficávamos na Rua Alexandre Herculano. Tivemos a sorte de partilhar jogos e brincadeiras. A última vez que estivemos juntos, num almoço dos “meninos da escola”, já se encontrava doente mas, como era seu hábito, com uma atitude positiva.

Tal como os outros companheiros que nos deixaram, será recordado com saudade nas reuniões dos antigos alunos dos Professores Silva Paiva e Oliveira. Para quem não se lembre bem dele, informamos que era um dos gémeos da turma do Professor Silva Paiva.

Para a “malta”, 2015 tem sido um “annus horribilis”, pois já tínhamos perdido o Álvaro Alves Sequeira e o Manuel Luís Vigário. Todos estes colegas sempre se esforçaram para fazer bem aos seus semelhantes, dando o melhor de si mesmos e por isso são exemplos a seguir.

Também é apropriado relembrar o Senhor Joaquim Rodrigues Bicho, que conhecíamos desde as lições de catequese e que nos habituámos a estimar pela sua simplicidade e bondade natural. Numerosos anos mais tarde, em apontamento publicado neste semanário, opinámos que este conterrâneo era um verdadeiro tesouro concelhio. Com efeito, não é com obras faraónicas que se consegue a admiração e o reconhecimento de uma comunidade. O afecto que se tem por um cidadão resulta muitas vezes da sua humildade, da sua dedicação ao colectivo. A delicadeza de trato e a grandeza de espírito caracterizavam igualmente este ser impar.

No recente lançamento do livro “Torres Novas – Festas Populares de Tradição Religiosa”, João Carlos Lopes refere-se-lhe nos seguintes termos: “vinha de outro tempo em que as palavras traduziam a sabedoria do mundo”.

O passamento do Senhor Bicho abriu uma brecha no sector cultural do concelho, mas a sua memória não se apagará entre os torrejanos que tiveram oportunidade de o conhecer e de ler a sua obra. Foi em boa hora que o município e outras entidades locais celebraram a sua vida.

Nunca tivemos veia de poeta, porém livros de poesia ocupam um recanto privilegiado da nossa biblioteca. Para a reflexão de hoje, pegámos em “90 e mais quatro poemas” de C. P. Cavafy, na tradução de Jorge de Sena. Gostamos de “escutar” a voz epidérmica desse grande autor grego.

E para conclusão, citamos umas estrofes inesquecíveis:  “Quando começares a tua viagem para Ítaca // reza para que o caminho seja longo, // cheio de aventura e conhecimento. // Não temas monstros como os ciclopes ou o zangado Poseidon”.

Chegaram ao fim da jornada. Que descansem em paz.

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