SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 16:59

Que futuro para a Turquia?

A Turquia aparece de novo nos telejornais. Desta vez, com más notícias. Os observadores concordam que se depara com enormes desafios. Não apenas políticos, mas também económicos e diplomáticos. As opiniões não são porém consensuais quando é questão de explicar o porquê.

A crise apresenta uma variedade de facetas: economia em declínio, dois milhões de refugiados, incerteza política, exigências islâmicas, ataques à liberdade de imprensa e prepotência do presidente Recep Tayyip Erdogan que ameaça profissionais da comunicação social, fecha estações de televisão, revistas e jornais. Entre outros, os que não hesitam em divulgar que Erdogan tinha fornecido armamentos aos djihadistas da Síria e do Iraque. Por muito graves que sejam estes problemas, nenhum será tão marcante como a escalada da guerra contra o PKK, partido que se bate pela independência do Curdistão.

Este conflito dura há uns trinta anos e tem vindo a piorar, pois que desde fins de Julho já vitimizou mais de 150 polícias e soldados turcos, assim como algumas centenas de guerrilheiros do PKK.

É um golpe de Erdogan, porque não conseguiu ganhar as eleições de Junho que lhe dariam poderes quase ditatoriais. Com vista à recuperação de uma fracção dos votos perdidos, este chefe de Estado autoritário faz tudo o que pode, inclusive reabrir a guerra contra os curdos.

Antes da visita efectuada em Agosto, jamais nos passaria pela cabeça a hipótese de a Turquia poder vir a ter o mesmo destino da Síria. Esperemos que tal não suceda, contudo os acontecimentos recentes levaram-nos a pensar de outra maneira.

Fazendo parte de um grupo constituído por parlamentares, académicos, teólogos, e um juiz, tivemos a oportunidade de dialogar com jornalistas, homens de negócio, professores, um assistente do Patriarca Bartolomeu da Igreja Ortodoxa e uma jovem da comunidade judaica. Também fomos recebidos na redacção de um dos maiores diários de Istambul, em diversas ONGs e convidados para jantar com famílias de diferentes estratos sociais.

Apesar de a região ter atravessado épocas difíceis na sua história multimilenária, a Turquia actual sempre conseguiu “in extremis” não perder o senso comum. O perigo é de novo iminente. A nação caiu numa espiral de violência que parece não ter fim. Nem a próxima eleição resolverá o problema. Até arriscamos afirmar que o cenário poderá vir a acinzentar-se ainda mais, como é hábito no Médio Oriente.

À primeira vista, a Turquia dá a impressão de ser um país ocidentalizado e moderno, mas essa aparência é enganadora. Trata-se, com efeito, de uma terra de contrastes, uma mistura inebriante de românticas urbes orientais e de uma ultramoderna vida urbana. Sobretudo em Istambul (18 milhões de habitantes) onde vimos arranha-céus e edifícios ultramodernos, bairros bem planeados, intermináveis engarrafamentos de trânsito, supermercados e centros comerciais que se assemelham aos de qualquer cidade europeia.

Tudo convenientemente enraizado no Islão e em determinados princípios associados ao laicismo propalado por Mustafa Kemal, mais conhecido por Atatürk (“O Pai dos Turcos”). A partir de 1923, foi este militar visionário que aboliu o absolutismo feudal dos sultões e implantou uma república democrática e secular. Num paradoxo de orgulho nacional e, ao mesmo tempo, de abertura a ideias estrangeiras, eliminou o califado islâmico e adoptou o alfabeto latino (antes usavam o alfabeto árabe). A cultura turca é por certo uma mistura “sui generis” com identidades europeias e do Oriente.

Os hititas foram um dos primeiros povos que dominaram a região. Mais tarde, outras grandes civilizações (persa, alexandrina, grega, romana, seljúcida, bizantina e otomana)  por aqui floresceram e deixaram marcas.

Nas próximas semanas, tentaremos partilhar uma variedade de impressões de viagem, pois a Turquia é um dos países melhor posicionados no mundo, ligando a Europa à Ásia. Apenas 3 % do território se situa no continente europeu, o restante fica na Península da Anatólia.

Escreveremos sobre mesquitas e basílicas, Éfeso e Capadócia, o palácio Topkapi do sultão e a última casa onde residiu a Virgem Maria, São Paulo e São João Evangelista, democracia e ditadura.

Inşallah! Se Deus/ Allah quiser! Ou Oxalá! Como também se diz em português.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados