SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 21:57

Ecologistas, umas vezes sim outras não

Em plenas férias, muitos serão os leitores e leitoras que ainda se dão ao luxo de fazer bagagem e ir passar uns dias de lazer noutro local. Mas qual é o meio de transporte que eles e elas utilizam?

Parecendo que não, a escolha pode reflectir custos ou benefícios ambientais. O impacto dos transportes varia imenso. As marcas deixadas pelos comboios não coincidem com as dos automóveis, autocarros ou aviões. Para não mencionar as bicicletas.

Claro que nos referimos às emissões de CO2 e ao efeito de estufa na atmosfera. Existe uma enorme diferença entre uma voltinha em bicicleta a pedais e uma corrida de Porsche a toda a velocidade.

Também é consensual que as melhores opções se centram nos transportes públicos. Porém, em Portugal, estes são mal geridos e o Estado desperdiça assim montanhas de notas grandes. Subsidio para aqui, participação acolá! Há mesmo quem receba rios de dinheiro por intermédio das falcatruas chamadas PPPs.

Fiquemo-nos pelo transporte ferroviário. Para quem vive na zona de Lisboa ou Porto, o mais indicado seria deslocar-se de metropolitano ou de comboio urbano. Consta-se, no entanto, que estes meios de transporte têm vindo a perder uma significativa percentagem de passageiros.

Primeiro, devido às dificuldades económicas impostas à classe média e aos trabalhadores em geral. Entra aqui também em conta, as ululantes manifestações e greves neste sector. Quem as esqueceu? De todos os contribuintes, terão sido os utentes sem alternativa de transporte para o trabalho que não as terão olvidado. Eles tampouco terão esquecido as carrancas e caras feias que têm prazer em assustar quem nem sequer pode ir em greve. Há milhões de portugueses com empregos precários que têm de trabalhar a sério para alimentar a família.

Já no Artigo 4 da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 28 de Agosto de 1789 se lia : “A liberdade consiste em poder fazer tudo aquilo que não prejudique outrem; assim, o exercício dos direitos naturais de cada homem não tem por limites senão os que asseguram aos outros membros da sociedade o gozo dos mesmos direitos”.

Por vezes, o utilizador dos transportes públicos sente que estes transtornos traduzem mais um jogo político do que uma defesa dos legítimos interesses dos trabalhadores. Ninguém pode esquecer que são sempre os que ganham o pão a trabalhar no duro que pagam as favas. Têm de se deslocar a pé para o trabalho, caso contrário é-lhes descontado um dia de salário. Enfim, manobras políticas que destroem a sociedade. Como dizia Nietzsche, o diabo está nos detalhes.

Temos em frente dos olhos a resposta recebida a uma reclamação que fizemos à Direcção Executiva da CP. A carta devia ter sido redigida “cópia e cola”. Com efeito, as eventuais diferenciações de outras no mesmo género limitar-se-iam ao dia e ao mês da data, às referências e, obviamente, ao endereço. Até a assinatura era mecânica. Claro que foi invocada a justificação habitual para negar a compensação requerida.

Noutra ocasião, na bilheteira do Cais do Sodré, o funcionário que nos atendeu, do alto dos seus cinquentas e poucos anos, não se dignou olhar na nossa direcção enquanto comunicávamos com ele. Como resultado, tivemos de repetir três vezes o que estávamos a dizer. E isto devido ao facto deste empregado da CP, se encontrar distraído a falar com os colegas. A conversa devia ser divertida, pois riam-se bastante. Os contribuintes é que não acham graça nenhuma ao verem-se sobrecarregados de “austeridade” para aguentar uma companhia com gente deste calibre. Por isso, quem pode vai no seu carrinho sem se preocupar com o custo ecológico.

Com a protecção dada a funcionários desta qualidade, que demonstram semelhante desprezo por quem lhes paga o salário e ajudas das quais estão excluídos milhões de outros trabalhadores, a CP, o meio ambiente e o país estão no bom caminho. Duvidam?

Só em 2013, foram oitenta e uma. “O maior número de greves feitas até ao momento foi registado no Metropolitano de Lisboa, um total de 13, a maioria das quais parciais, seguindo-se a CP, com 12 paralisações” (“Público” (30.Dez.2013).

Como se trata de um direito fundamental dos trabalhadores, que ao longo da história foi conquistado à custa de sangue, suor e lágrimas, ficamos confusos. Há serviços “públicos” que são imprescindíveis e é necessário defendê-los. Como lemos num blogue, também nós perguntamos “se não estarão a fazer sofrer quem já é vítima do sistema?”

Sabemos como opera o sector dos transportes portugueses. Será por estes motivos que um quarto dos portugueses nunca usa transportes públicos? Que o número de passageiros tem diminuído?

Para estes “artistas”, os discursos ecológicos são um meio, não um fim. Há quem não tenha ouvido o despertador a tocar. Paradoxos dos tempos modernos. Continuam na fantasia das utopias.

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