SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 15:31

Granada, Islão e Mouros

Iniciámos a redacção destes parágrafos no Eid al-Fitr, o grande dia de festa em que milhões de crentes celebram o fim do Ramadão. Como vai sendo hábito, recebemos convites para, num dos dias de jejum ritual, nos juntarmos às famílias desses amigos para participar numa refeição de quebra-jejum logo após o pôr-do-sol.

Temos andado a ler sobre a religião pregada por Maomé. Já antes nos tínhamos referido às divisões entre sunitas e xiitas. Hoje, ficamos pela península ibérica, região de al-Andalus que tem aparecido na lista de eventuais reconquistas do islamismo militante.

O último reduto de al-Andalus foi o reino nasrida de Granada que, a dada altura, controlava um vasto território que ia de Algeciras a Almeria. Este foi-se reduzindo pelas sucessivas vitórias cristãs até que, em 1492, o rei Boabdil não teve outro remédio senão capitular. Assim acabou o domínio sarraceno da península. Aliás, este é o momento a que alude o título do romance de Salman Rushdie “O Último Suspiro do Mouro”.

Em qualquer canto do mundo se reconhece o contributo estético da arquitectura granadina. O que, por vezes, passa despercebido é que a célebre fonte cercada por doze leões de pedra que se vê na Alhambra é incoerente num edifício cujos construtores muçulmanos abominavam qualquer representação de homem ou animal. O que muita gente desconhece é que as primeiras obras deste palácio-fortaleza foram idealizadas por um judeu praticante, Joseph ibn Nagdilah. Para ele, os leões representavam os doze bois do Templo do Rei Salomão em Jerusalém. Estas curiosidades têm o seu valor.

Com o triunfo do cristianismo, o país ficou unificado sob os Reis Católicos, um título conferido pelo papa Alexandre VI a Fernando II de Aragão e a Isabel de Castela. A devoção religiosa resultou na expulsão, primeiro, dos judeus que recusaram converter-se ao cristianismo e, em 1502, dos mouros. Os “conversos” e “moriscos” que permaneceram em Espanha eram vistos com desconfiança e muitos acabaram nas masmorras da Inquisição.

Os espanhóis têm um sentimento agridoce em relação aos elementos islâmicos da sua história. Quais serão os mais marcantes na identidade ibérica?

Mesmo quando não rejeitaram por completo os muçulmanos e a sua herança, mesmo quando foram na direcção oposta, os argumentos sobre a identidade nacional transformaram-se num debate sem fim. E, deste modo, nunca hesitaram em utilizar o passado islâmico consoante a necessidade das circunstâncias políticas e sociais.

Antes de Edward Said ter esclarecido muitos investigadores sobre a questão do “orientalismo”, também nós tínhamos questionado o romantismo da visão de alguns autores quase clássicos. Estamos a pensar em Washington Irving (“Tales of Alhambra”) e Chateaubriand (“Les aventures du dernier Abencérage”). Por seu turno, este influenciou Théophile Gautier que escreveu em ” Voyage en Espagne” que o país teria ficado melhor se não tivesse deixado de ser muçulmano.

Por outro lado, há quem diga que alguns dos principais pensadores do país vizinho fazem causa comum pela Reconquista cristã. Miguel de Unamuno (1864-1936) foi um deles: “De los árabes no quiero decir nada, les profeso una profunda antipatia […] y considero su paso por España como la mayor calamidad que hemos padecido” (Sobre os árabes não tenho nada a dizer, a não ser que sinto uma enorme aversão por eles […] e considero que a sua passagem por Espanha foi uma das maiores desgraças que sofremos” (“El Porvenir de España”). Ortega y Gasset (1883-1955) perfilhava opiniões idênticas.

Contudo, o poeta Federico García Lorca (1899-1936), nascido e criado nesta metrópole andaluza, não hesitou em comparar os palácios dos nasridas com o que o imperador Carlos V construiu na Alhambra. Em plena guerra civil, causou grande alvoroço quando manifestou de modo claro e terminante que a conquista cristã foi um desastre para a ciência e a cultura.

Associamos certos centros históricos com antigas casas. A passagem de gerações espreita pelas ranhuras do soalho e cada uma das divisões está pejada de memórias. Nascimentos, festas, alegrias, lágrimas, doenças e mortes.

Gerações vêm e vão. São feitas alterações e adições. Mudam-se paredes, substituem-se janelas. Substituem-se telhas na cobertura. As cidades tal como as casas, bem ou mal, perduram no tempo. Nele estamos sempre conscientes do passado, preocupando-nos com o futuro. Um bom exemplo poderia ser Granada que, apesar do turismo, soube manter uma identidade própria.

Foi há séculos que os reis Isabel e Fernando derrotaram os mouros. Apesar da determinação espanhola em obliterar a influência muçulmana, é maravilhoso continuar a poder admirar estes testemunhos de outras eras. Tendo por fundo a Serra Nevada, a Alhambra recorda os 800 anos em que povos islâmicos dominaram esta parte da Ibéria. Tempo suficiente para forjar uma civilização. Quando construíram edifícios monumentais, não foi com a miopia de um invasor temporário, mas com esquemas arquitectónicos transplantados da África do Norte e do Médio Oriente.

Para terminar, transcrevemos os primeiros versos de uma célebre canção dedicada a esta cidade:

“Granada, tierra soñada por mí // mi cantar se vuelve gitano cuando es para tí // mi cantar hecho de fantasía // mi cantar flor de melancolía // que yo te vengo a dar. // Granada, tierra ensangrentada en tardes de toros. // mujer que conserva el embrujo de los ojos moros”

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