SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 15:36

Viena de Áustria, entre ontem e amanhã

Por boas ou más razões, a Áustria é uma referência incontornável na história europeia. Mais do que qualquer outro país, também está associada com talentos musicais: Gluck, Haydn, Schubert, Brahms, Strauss, Bruckner, Wolf, Mahler, von Karajan, Berg, Schönberg  e por aí adiante, sem esquecer o mais famoso de todos, Mozart, e  bem assim Beethoven, um “filho adoptivo” que, após ter deixado Bona em 1792, aqui passou os restantes 35 anos de sua vida.

Uma ostentação constante com imperadores que queriam prédios de bom estilo: gótico, renascentista, barroco. Alguns projectos fundiram-se num estilo singular que veio a ser chamado Ringstrasse. É de identificação fácil nas construções majestosas situadas nesta rua: Staatsoper, Burgtheater e Rathaus. Andando pelos parques adjacentes, será apropriado imaginar uma bela tarde de verão a ouvir o quinteto “Die Forelle” (a truta) de Shubert.

Até na escola primária ouvimos falar da monarquia austro-húngara que chegou ao fim com os destroços da primeira guerra mundial. O assassínio do príncipe Franz Ferdinand, em Sarajevo, desencadeou a catástrofe. O emperador Franz Joseph morreu em 1916, com 86 anos, e com ele acabou-se o domínio dos Habsburgos que durou seis séculos e meio.

Seguiram-se tempos conturbados. Viena, a cidade imperial, o centro de um imenso poder, tornou-se capital de uma pequena nação. Em 1918, a desordem generalizou-se no país que, amputado de uma parte do seu território, estava tentado pela integração na Alemanha. Receava ser incapaz de sobreviver economicamente.

Os fundadores da Primeira República (1918-1938) lançaram um programa de reformas sociais tão ousado que a capital foi apelidada “Viena, a Vermelha”. Nesta sociedade em ebulição surgiram vários grupos paramilitares e, em 1927, houve uma centena de mortos numa manifestação contra as iniquidades judiciais. Em 1934, rebentou a guerra civil.

A seguir ao insucesso da esquerda, o caminho ficou aberto para, decorridos quatro anos, ser plebiscitada a união da Áustria com o Reich alemão. Os resultados foram reveladores. Os vienenses votaram 99,6% a favor e multidões delirantes aplaudiram Adolf Hitler na ainda hoje denominada Heldenplatz (Praça dos Heróis).

Depois da libertação, tal como sucedeu na Alemanha, também este país foi dividido em quatro zonas, cada uma sob comando de um dos aliados, enquanto Viena era administrada pelas quatro potências. Esta era a cidade do pós-guerra que o filme britânico “The Third Man” tornou famosa.

Baseado num livro de Graham Greene, o filme evocava um mundo crepuscular e decadente, onde sobressaíam a criminalidade e a intimação política. Nenhuma outra pelicula revelou tão bem o mal-estar, a humilhação e o mercado negro num ambiente fantasmagórico de escombros de guerra. Quem não o viu, talvez ainda o possa ver. Está disponível na internet.

A derrota não conseguiu eliminar o sentimento de superioridade espiritual e ideológica. Tampouco as debilidades financeiras. Quiçá se deva sublinhar a oscilação, quase esquizofrénica, entre os complexos de superioridade-inferioridade presentes na história dos Habsburgos e, de igual modo, na cultura nacional.

Sirva de exemplo Friedrich que utilizava as letras enigmáticas AEIOU nos documentos oficiais e as mandava gravar nos edifícios públicos. Há quem diga que significam “Austriae est imperare orbi universo” (o mundo inteiro está sujeito à Áustria).

A mentalidade desta gente é bastante complexa. Tem um lado divertido, mesmo alegre, que coexiste com uma faceta mais oriental e melancólica. Sim, têm as valsas de Strauss e bolos admiráveis. Porém, nem tudo é deslumbrante. É igualmente a cidade dos pogroms contra a comunidade judaica, das desventuras da imperatriz Sissi e das psicastenias freudianas.

Com a expansão da UE, Viena reganhou importância. De novo, serve de plataforma giratória entre o Oriente e o Ocidente. A diversidade étnica é um facto. Segundo o diário “Die Presse”, 20% da população tem passaporte estrangeiro e os pais de cada um em três habitantes não nasceram no país. A maioria é oriunda da Europa do Leste, dos Balcãs e da Alemanha. Apenas a presença turca gera polémica, porque nem os ataques otomanos nem o cerco de 1683 se apagaram da memória colectiva.

Embora Viena cultive a nostalgia da corte imperial, é uma cidade moderna e atraente. Um lugar que, conforme dizia Goethe, se situa entre o ontem e o amanhã.

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