SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 16:31

Eslováquia, nação antiga num país novo

A economia da Eslováquia superou as expectativas de crescimento no primeiro trimestre de 2015. Registou um aumento de 3,1%, devido à procura interna e às exportações. Uma taxa que é o dobro da média na UE e na zona euro.

Hoje em dia, é o líder mundial na produção de carros por pessoa. Tanto a Volkswagen como a Kia e a Peugeot/Citroën construíram aqui enormes fábricas. Se assim é na indústria automóvel, a situação é semelhante no que se refere ao número de velhos castelos por habitante.

Um bom exemplo destes últimos será o de Bratislava. Existem documentos que lhe atribuem uma “idade” próxima dos dez séculos, porém também se sabe que a colina onde está situado já era habitada no tempo dos celtas. Apesar de ter uma história agitada, continua alteroso na contemplação das águas do Danúbio.

Sofreu grandes restauros nas últimas décadas e, desde a introdução do euro em 2009, constitui um dos três símbolos nas moedas de 10, 20 e 50 cêntimos.

A população total anda por metade da portuguesa, a capital é Bratislava e a língua o eslovaco. Vistas as coisas de determinado modo, tal como noutros países vizinhos, a situação geográfica da Eslováquia não ajuda. É como o fiambre da sandwich. De um lado os russos, de outro as civilizações germânicas.

A sua história foi obscurecida por uma série de filtros sucessivos. Até o século XX, fez parte do Reino da Hungria, por sua vez integrado no Império Austro-húngaro, que lhe negava a identidade. Mais tarde, no âmbito da primeira República da Checoslováquia e em nome das renúncias associadas a um estado emergente, as autoridades de Praga tentaram apagar as diferenças existentes entre os dois povos.

O regime comunista permaneceu neste caminho. Assim se compreende que, após a separação, a Eslováquia tenha sido tentada a elaborar uma contra-história dirigida contra os antigos guardiões.

A contestação começa quando se tenta diferenciar checos de eslovacos. Será que não pertencem ao mesmo grupo cultural e linguístico? Foram numerosos os linguistas da primeira metade do século passado a defender que se tratava de um dialecto da família eslava ocidental, pertíssimo do checo. Por detrás destas asserções encontrava-se um propósito político comprometido na construção de um Estado forte e centralizado.

A memória da Segunda Guerra Mundial não é semelhante à que domina na República Checa, porque o regime clérigo-fascista de Monsenhor Jozef Tiso criou, pela primeira vez, um estado “independente”.  Deve-se sublinhar que o território estava em parte ocupado por tropas nazis alemãs e que 75% das exportações se destinavam ao Reich hitleriano.

Foi então que apareceram a bandeira, hino e emblemas nacionais. Até uma constituição aprovada em Julho de 1939, inspirada nalgumas práticas fascistas e nos modelos autoritários da Áustria e de Portugal.

Mais recentemente, sucederam-se a “Primavera de Praga” e o reformista Alexander Dubček. Ninguém esqueceu a invasão de 1968 pela União Soviética e por outros membros do Pacto de Varsóvia. Václav Havel foi outro resistente. Em 1993, a Eslováquia proclamou a independência e nasciam o estado que conhecemos hoje e a República Checa. Tudo sem consultas da vontade dos respectivos eleitores. Os políticos gostam destas soluções. Os referendos complicam-lhes a vida. Onze anos depois, entra na União Europeia e, desde então, constata-se o surgimento de a uma historiografia associada à afirmação política de Bratislava e Košice.

Um país complicado que, à primeira vista, causa má impressão. Ao sair do combóio, deparámos com a pior gare que jamais tínhamos visto numa capital europeia. Para cúmulo, todos os guias turísticos advertiam para se ter cuidado com os carteiristas e também nos irritou a chuva miudinha.

Pouco a pouco, mudámos de opinião. Descobrimos que os eslovacos eram supersimpáticos, sobretudo quando comparados com os vizinhos húngaros e austríacos. Tivemos a sorte de, ainda na estação, termos encontrado um cavalheiro que nos indicou num inglês impecável a direcção para o hotel. No percurso, perdemo-nos e outra pessoa saiu do caminho para nos mostrar onde se encontrava a rua que procurávamos. Chegados ao hotel, informaram-nos que havia um pequeno problema com a reserva mas que nos iriam alojar, por igual preço, noutro da mesma cadeia mas de qualidade superior. Foi o próprio gerente quem nos conduziu no seu Mercedes e deu instruções na recepção. Um bom augúrio.

Com efeito, vem de longe a reputação da hospitalidade eslovaca. Talvez esta maneira de ser sirva de compensação para a falta de grandes atracções turísticas, com excepção das montanhas Tatras que fazem lembrar os Alpes. Tampouco Bratislava se pode comparar com Praga, Budapeste ou Viena. A capital só tem 420.000 moradores, muitos deles com ar provinciano e a viverem em edifícios em mau estado de conservação.

No sector da comida, é de sublinhar o “oštiepok” (queijo defumado) e uma sopa de couves com colorau e enchidos a que chamam “kapustnica”. Os eslovacos também produzem boas pingas, sobretudo na zona dos Cárpatos Menores. E, ao contrário dos outros povos da Europa Central caracterizados pelo consumo de cerveja, aqui prefere-se beber vinho.

“Na zdravie”! Ou “saúde”, como se diz em português.

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