SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 13:51

Praga, um museu a céu aberto

Horas após a confraternização dos ex-alunos dos Professores Silva Paiva e Oliveira, em Torres Novas, partimos para a República Checa para uma visita à sua capital.

Durante décadas, eram raros os portugueses que conheciam este país. A política impedia as permutas culturais. Havia a Rádio Praga, mas isso é outra história.

Confessamos uma ignorância prolongada, com excepção do que aprendemos nas aulas de geografia do Dr. Saramago e no célebre livro de Jaroslav Hašek (O valente soldado Chvéik). Se não estamos em erro, deve existir um exemplar na Biblioteca de Torres Novas. Ficámos então com a impressão que Chvéik representa o carácter dos checos. Mais tarde, descobrimos que os visados se sentem insultados quando alguém associa um idiota deste calibre com qualquer característica nacional.

Praga faz parte do diminuto grupo de cidades da Europa Central que não foram danificadas na Segunda Guerra. Tem uma mistura de diversos estilos de arquitectura que revelam uma elegância impar, onde as construções medievais fazem levantar a cabeça do viajante atraído pelos detalhes de uma estátua no alto de uma torre, numa ponte ou nos pináculos das igrejas.

A mais de uma vintena de anos da desaparição do Bloco de Leste e do regime comunista, Praga apresenta-se hoje como uma metrópole verdadeiramente cosmopolita. É um museu vivo bem disfarçado, com surpresas a surgirem no virar de cada esquina.

Depois de uma corrida de táxi desde o Aeroporto Václav Havel, chegámos ao hotel mesmo no centro da urbe. Para o primeiro encontro com a cidade, decidimos dar logo um passeio à beira-rio. No cérebro, passavam frases soltas da obra mais famosa de Smetana, “O Moldava” (Vltava), do poema sinfónico “A Minha Pátria” (Má Vlast).

Admirámos a beleza envolvente e maravilhámo-nos com o imponente Castelo de Praga reflectido nas águas serenas e compreendemos o que talvez tenha levado Goethe a referir-se a este conjunto como a jóia da coroa mais perfeita do mundo. Esta perspectiva incomum fez aumentar as expectativas. Tínhamos de regressar ao hotel, mas ficámos com a impressão que seria necessário organizar com cuidado a agenda para que não ficasse abarrotada.

Dedicámos bastante tempo à visita do enormíssimo Castelo, onde tudo começou no século IX. Empoleirado majestosamente sobre uma colina, tem um naipe de atracções turísticas: a Catedral de São Vito, o Palácio Real, a Basílica de São Jorge e a Torre da Pólvora.

Tomámos o caminho real de volta para o Malá Strana, no qual todas as construções foram feitas antes do século XIX. Para recuperar a energia, fomos provar os “bagels” boémios fabricados neste bairro, diferentes daqueles que se vendem na América do Norte. Demos em seguida uma saltada à Ilha de Kampa, onde vimos arte moderna, tanto checa como europeia, no museu com o mesmo nome.

Deixando com lentidão o calor do hotel, enfrentamos um vento frio para ver o nascer do sol a partir da Ponte Carlos. Aconselharam-nos que seria esta a melhor maneira de evitar as hordas de turistas.

Datada do século XIV, em conjunto com as trinta estátuas que nela se podem admirar, constitui uma das mais célebres edificações locais. Está quase sempre cheia de artistas e músicos de rua. Há quem afirme que também aqui actuam carteiristas com imensas habilidades.

Atravessámos para a Staré Město (Cidade Velha) e seguimos de imediato para a Praça com a mesma denominação, considerada uma das mais graciosas da Europa. As badaladas do relógio astrológico do século XV— notável pela encenação das figuras dos doze apóstolos—lembraram-nos que eram horas de comer algo e escolhemos o Grande Café Slávia, um bom exemplo de Arte Deco dos anos 30. Mais tarde, à noite, conseguimos ir a um concerto na Obecní Dum (Casa Municipal), onde ainda ressoam os passos de músicos de nomeada. O mencionado Smetana e também Dvořák e Janáček são compositores que aparecem com frequência nos programas.

O leitor não será colhido de surpresa ao ouvir dizer que as cervejas checas figuram entre as melhores do mundo. Tanto a Pilsner Urquell como a Budvar têm aqui as suas raízes. No último dia, comemos “guláš” e “knedlíky” ao almoço, que foi acompanhado de uma caneca de “pivo”, uma das primeiras palavras checas que os estrangeiros aprendem e que significa cerveja.

Já no avião de regresso, recordámos uma opinião de Franz Kafka (1883-1924),nascido nesta cidade quando ela era a capital do Reino da Boémia e parte do Império austro-húngaro: “Praga nunca deixa uma pessoa ir-se embora, esta velha tem garras”.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados