SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 16:59

Sunitas, xiitas e islão radical

Em preparação de dois projectos sobre o islão, efectuámos algumas leituras sobre este tema. Resolvemos dar uma olhada a algumas referências bibliográficas a esta religião do Médio Oriente que levou tudo de roldão à sua frente nos séculos VII e VIII da era cristã. A fé dos conquistadores maometanos da Pérsia, Mesopotâmia, Egipto, África do Norte e quase toda a Península Ibérica. Também queríamos aprender algo mais sobre as raízes do radicalismo muçulmano. Estarão elas no xiismo ou no sunismo?

Embora sejamos leigos nesta matéria, notámos de imediato que a distinção entre sunitas e xiitas é bastante complexa. Contudo, resumi-la-emos desde já da seguinte forma: os primeiros aceitam a Suna e a autenticidade dos quatro profetas que apareceram depois do Maomé; enquanto os segundos são partidários de Ali, marido de Fátima e, por conseguinte, genro de Maomé. Os xiitas negam a legitimidade dos quatro profetas que sucederam o fundador do islão, ou da submissão a Alá.

O tema da colaboração desta semana baseia-se numa questão que surge em muitas conversas sobre os militantes do islão fanático afiliados à Al-Qaeda, Boko Haram, Al-Shabab, Estado Islâmico, et cetera. A lista é longa.

Nos grupos responsáveis pelos ataques, tomadas de reféns e outras violências contra os que eles classificam de “hereges, infiéis, apóstatas e inimigos do islão”, nem sempre se compreende a correspondência com um ramo específico desta religião.

É útil não esquecer que cerca de oitenta por cento dos 1.500 milhões de crentes se dizem sunitas e uma quinta parte xiitas. Esta divisão remonta à época posterior ao desaparecimento do profeta Maomé e derivou da disputa sobre quem devia herdar o comando supremo da Umma (comunidade dos crentes). Daí evoluiu uma cultura doutrinal e interpretativa dos textos corânicos que se foi distinguindo com o decorrer do tempo.

Imensas regiões do mundo muçulmano, tanto árabe como não árabe, são homogeneamente sunitas. A Arábia Saudita, Qatar, Egipto, Jordânia, Líbia, Tunísia, Indonésia, Malásia, Afeganistão, Paquistão e Turquia têm uma população que se identifica com o sunismo, o mesmo acontecendo com muitos milhões que vivem na Índia, China ou Filipinas. Por outro lado, o Irão cuja população não é árabe mas sim persa, é totalmente xiita. Esta divisão torna-se mais complicada nos casos do Iraque e do Líbano, países com populações mistas mas de maioria xiita, que são considerados sunitas.

Tomemos por exemplo o Iraque que realça esta complexidade. Saddam Hussein era um sunita que governava com um prejuízo opressivo e discriminatório contra a maioria xiita. Mesmo após a queda do ditador, a divisão entre os muçulmanos continua a ser um factor de peso nas turbulências políticas, antes e depois da mudança de regime.

É óbvio que a imensa maioria dos muçulmanos não adere ao extremismo dos islamistas radicais. Porém, a fracção minoritária que nele acredita, e cuja visibilidade tem aumentado nas últimas décadas, tem vindo inquestionavelmente a crescer. Está ancorada tanto no sunismo como no xiismo.

Com efeito, o activismo terrorista e a sua exportação para os quatro cantos do globo entroncam em ambas as correntes. Quiçá estejam dependentes de determinadas geografias e estratégias do poder. Por exemplo, o Irão dos aiatolas está a associado a estes jogos com elementos próprios ou por intermediários da facção xiita como é o caso do Hezbolah.

Quase todos os dias lemos e ouvimos “proezas” do ISIS (Estado islâmico) que se caracteriza por uma selvajaria a que nem os mídia ocidentais, tão obedientes ao “politicamente correcto”, conseguem esconder. As vítimas destes loucos tanto podem ser muçulmanos de outro ramo como “infiéis”, sobretudo cristãos mas também yazides.

O islão é uma casa enorme onde habitam centenas de milhões de fiéis que não partilham o fanatismo dos seus prosélitos fundamentalistas. E sublinhe-se de novo que dementes desta espécie encontram-se tanto no sunismo como no xiismo.

Há jornais, revistas e programas televisivos que evitam pronunciarem-se de forma clara e explicita sobre o assunto. Nalguns casos, receiam ter a mesma sorte dos jornalistas do “Charlie Hebdo” ou do “Julands Post”. Noutros, têm o cérebro tão bem lavadinho que preferem não ver a realidade.

Doa a quem doer, hoje ninguém duvida que também compete aos muçulmanos pacíficos e moderados combater os idiotas que, em nome do profeta e empunhando o Corão, tanto mal fazem à reputação da sua religião.

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