SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 05:48

Vinhos e vinhedos da Argentina

Do Brasil fomos para o Chile e, a partir de Santiago, fizemos uma breve visita a Mendoza, no outro lado da cordilheira dos Andes. Em geral, a Argentina não se acha no topo das prioridades dos roteiros turísticos. Fica longe da Europa, da Ásia e da América do Norte. Não tem ruínas de civilizações extintas, nem é destino de peregrinações multisseculares. Com alguma frequência, até tem sido alvo de publicidade bastante negativa: uma presidente envolvida na morte do Procurador-Geral que a ia inquirir, corrupção, desfalques, falências, etc. etc. Ainda assim, somos da opinião que merece uma viagem. Porquê? A resposta vem nas linhas que se seguem.

A pátria de José de San Martín—El Libertador—mas também do populista Juan Perón e das ditaduras militares, é mais que uma coluna de jornal ou as imagens que vemos nos noticiários da televisão.  A Argentina é muito mais do que isso.

Claro que há o tango, Carlos Gardel, Jorge Luis Borges e cinco prémios Nobel, no entanto o país também serve de exemplo de um retrocesso generalizado e ilustra a passagem do desenvolvimento para o subdesenvolvimento económico. Embora 14 milhões de pessoas vivam na capital, a Argentina não é apenas Buenos Aires. É Ushuaia, a cidade mais austral do mundo, Córdoba, Rosário, Mendoza ou San Miguel de Tucumán. Com mais, ou perto, de um milhão de habitantes.

Estivemos há anos na megalópolis do Rio da Prata. Nunca sentimos vontade de regressar, porém surgiu uma desculpa para visitar outra das regiões emblemáticas deste imenso país. Assim, aproveitámos a estadia em Santiago do Chile para ir ver as vinhas da região de Mendoza que, agora, se tornou numa das nossas áreas favoritas.

Está localizada nas terras áridas do oeste da Província de Cuyo. Mendoza foi fundada em 1561 por Pedro del Castillo e, séculos mais tarde, foi de lá que saiu o General San Martín para libertar parte da América do Sul do domínio espanhol. Um monumental Cristo Ressuscitado foi construído no passo que os soldados atravessaram para entrar no Chile. Como tela de fundo, o majestoso Aconcágua. Com 6.960 metros, é o ponto mais elevado da República.

Mendoza é a cidade mais importante do Cuyo. O trajecto de autocarro foi melhor do que esperávamos. São cerca de seis horas, com intermináveis voltas e voltinhas, numa óptima estrada que passa por cima dos Andes. Quem enjoe deve evitar este percurso e os apressados perderão a paciência nas longas filas da alfândega no meio das montanhas. Se bem que fatigantes, estes inconvenientes rapidamente se esquecem.

Chegámos quase no fim de uma tarde outonal e logo nos demos conta da extraordinária luminosidade. Olhando para oeste, na linha do horizonte, os primeiros contrafortes dos Andes contrastavam com o céu azul.

Avenidas, ruas e calçadas estavam repletas de vendedores, de uma multidão que, a essa hora, talvez não tivesse nada de melhor para a ocupar. Olhavam uns para os outros e falavam com grandes gesticulações. Nos bares e esplanadas, bebiam vinho.

Devido à amenidade do clima e aos invernos serem curtos e secos, um número crescente de empresas francesas e italianas descobriram que era bom negócio investir na viticultura local. A mão de obra é barata e o cambio favoriza o euro.

De igual modo, a portuguesa Sogrape criou aqui uma subsidiária. Chama-se Finca Flichman e produz tintos de qualidade, das cepas malbec, cabernet sauvignon e syrah. São excelentes. Os da marca “Mistério” vendem-se em Portugal e já por duas vezes os adquirimos no Jumbo de Cascais. Encontram-se nas prateleiras de vinhos estrangeiros. São “Made in Argentina”, mas feitos por portuguesinhos da Silva. Sem que muita gente o saiba.

Aconteceu, porém, que por diversas circunstâncias, tivemos de optar por outra produtora. Tivemos sorte na escolha: as Cavas Weinert  em Chacras de Coria. Foram fundadas na década de 1890 por viticultores locais e compradas, em 1975, pelo brasileiro Bernardo Weinert. Esta companhia foi uma das primeiras a apostar na tecnologia moderna e no futuro dos grandes vinhos argentinos, malbec acima de tudo.

Entre outros motivos que nos levaram a fazer esta opção, o principal foi ter sido por intermédio desta marca que nos familiarizamos com a casta malbec. Começámos pelo Estrella que ainda hoje consumimos em ocasiões especiais. No Canadá, uma garrafa da colheita de 2006 vende-se a 21 dólares. O preço é um pouco puxado, mas quiçá justificado pela qualidade.

Depois da escapadela argentina, o Chile servirá de tema para a próxima semana.

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