SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 00:45

Com lentidão de tartaruga em Lille

Quem viaja sabe que ao retornar a um lugar visitado há muitos anos nunca o encontra na mesma. As cidades crescem e transformam-se como as pessoas. Assim aconteceu com Lille que não revíamos há quase uma geração. A composição demográfica é diferente. Apesar de enormes investimentos na reabilitação urbana, nota-se que os problemas habitacionais apenas se transferiram para os guetos da periferia. Ouve-se falar tanto árabe e línguas africanas como francês. Embora isto seja um elemento relevante na equação do ter e haver, mantem teimosamente o essencial da identidade. Por quanto tempo, ninguém sabe. Será mais um exemplo da globalização “à outrance”?

Sabemos que é assim, aqui e alhures. Pensávamos, porém, que seria diferente nas mercearias chiquérrimas que servem o segmento da população dita “de souche”. E ficámos um pouco surpreendidos ao constatar que os frutos e hortaliças já não são produzidos nos “terroirs” gálicos. Cebola e pepinos de Espanha, tomates de Israel, uvas do Chile, figos da Turquia, toranjas da Califórnia, limões da Argentina, feijão-verde do Quénia, mirtilos de Marrocos, e por aí adiante. Não é o que se via nas prateleiras, há umas décadas atrás. As maçãs e as peras sabiam às brisas da Normandia, os figos ao sol do Midi ou as cerejas à Alsácia. Como em Portugal, hoje em dia, temos o mundo dentro de um supermercado. Estamos interconectados, por assim dizer. Na demografia e na economia.

Visto que tínhamos alguma disponibilidade de tempo, a visita efectuou-se a passo de tartaruga. A cidade natal de Charles de Gaulle sempre nos atraiu. Lille é bastante convivial e adquiriu um novo sopro de vida ao abraçar com sucesso a alta tecnologia, ao mesmo tempo que preservou os seus tesouros culturais.

A situação geográfica é privilegiada. Encontra-se no extremo norte do Hexágono, junto à fronteira belga e perto de Londres, Paris e Bruxelas. Amesterdão e Colónia também não estão longe. Esta localização talvez explique a razão de ser da supermoderna estação Lille-Europe, construída expressamente para os TGVs e Eurostrar que a ligam às grandes metrópoles europeias. O Túnel da Mancha terá sido a alavanca deste desenvolvimento.

Há duas semanas, quando nos referimos à praga da corrupção, mencionámos o julgamento de Strauss-Kahn (importante líder socialista) num tribunal local. Tudo começou com a polícia a monitorizar quem frequentava os hotéis Carlton e Tours de Lille, onde o relações públicas René Kojfer arranjaria prostitutas para alguns clientes” (“Público” 3.Fev.2015, p. 27).

Toda a região do norte da França é território socialista. De 1896 a 1904, Lille teve o primeiro presidente da câmara socialista na história do país (Gustave Delory) e, nas últimas seis décadas, a comunidade urbana tem sido dirigida pelo PS. Uma das personagens mais conhecidas será Pierre Mauroy, eleito em 1973 e reeleito repetidas vezes até 2001, ano em que passou o testemunho a Martine Aubry.  Sublinhe-se que ela também foi secretária-geral do PS, entre 2008 e 2012, e que, aliada a Strauss-Khan, ganhou a liderança do partido com 50,04% dos votos. Apenas 102 de diferença. A sua rival foi—e continua a ser— Ségolène Royal (49,96%), uma das ex-companheiras do Presidente Hollande.

A história local não é menos atribulada. Antes de fazer parte da actual República Francesa, a cidade esteve sob domínio flamengo, austríaco e espanhol. Em 1667, foi conquistada por Louis XIV. Antes, fazia parte da Flandres. À semelhança de Bruges, Ypres e Gante, foi um dos maiores centros da fabricação e comércio de têxteis na Europa. Lã, linho e cânhamo dominavam esta indústria. Tinham fama as tapeçarias e os tecidos aqui manufacturados.

Foi o “Roi-Soleil” quem reorganizou o centro histórico, ou seja a área situada entre a Grand-Place e a fortaleza. Ainda hoje se concentram nesta zona as atracções para os turistas. Além do edifício da Antiga Bolsa, são igualmente dignos de admiração os numerosos prédios de estilo flamengo.

Depois da Primeira Guerra Mundial, a população ficou reduzida a metade devido aos bombardeamentos e à ocupação alemã. A cidade ficou em ruínas. Em 1940, nova ocupação e conquista pela 7ª divisão de blindados comandada pelo General Erwin Rommel. Até 1944, foi colocada na chamada “zona proibida”, administrada directamente pelas autoridades nazis sediadas em Bruxelas.

O progresso não pára. Anexa à velha gare ferroviária, foi erguida uma torre de 20 andares, num projecto de Christian de Portzamparc, projecto esse incluído num vasto plano de renovação urbana com as assinaturas de Rem Koolhaas (o mesmo da Casa da Música do Porto) e Jean Nouvel. Recorde-se que estes três arquitectos foram galardoados com o Pritzker, prémio análogo ao Nobel.

Na actual crise de liderança gaulesa, lembramos que na nossa juventude a França era uma potência mundial. Isso no tempo do General De Gaulle. Assim, aproveitámos para ir ver a casa onde nasceu em 1890. De facto, é impressionante visitar o N° 9 da rua Princesse. O edifício é agora ocupado por um museu sem pretensões, no qual se podem admirar fotografias e objectos associados ao estadista que marcou a história de França e da Europa. De particular interesse, o “vestidinho” em que foi baptizado o “gros Charles”.

Lille adora o seu filho dilecto. Também nós gostamos dele e da terra que o viu nascer.

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