SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 15:25

“Meninos da Escola” na idade dourada

Semana após semana, o termómetro teima em não subir dos 10 ou 12 graus negativos. Hoje esquentou, como dizem os brasileiros. Estamos a menos cinco e sente-se que a primavera vai chegar. Quer isto dizer que o Dia de São Patrício está à porta e é sempre com interesse que constatamos o entusiasmo com que bastantes amigos festejam o bispo que evangelizou a Irlanda no quinto século da era cristã. Manda a tradição que nesse dia se vistam de verde e, com ou sem trevo por emblema, consumam quantidades generosas de Guinness. Espessa, morena e robusta, com a coroa de espuma a colar-se ao copo. Na ilha-mãe e noutras geografias com forte presença dos seus filhos, os irlandeses aproveitam a ocasião para demonstrar que a eloquência e o canto são características próprias à jovialidade colectiva.

Ora bem, cogitando sobre a primavera associámo-la a outros tempos e a outras estórias. Recordámos como os “malteses” da nossa juventude também eram imaginadores e gostavam de conviver. Organizavam campeonatos de bola e de hóquei…sem patins. Meia-dúzia de décadas depois, agora com cabelos embranquecidos e reacções mais lentas, gerem as energias com cuidado. Manda a Sra. D. Prudência que tenham juízo e que se fiquem pelos desportos de garfo e faca, com o adicional consumo de líquidos para evitar a desidratação.

Está na moda dizer mal dos alemães e socorremo-nos de um termo da língua deles. Trata-se de “Torschlusspanik”, que se pode traduzir por uma espécie de pânico associado ao avanço da idade. Tem origem na sensação da vida estar a passar demasiado depressa. Sim, a vida é como o vento que vai tal como veio. Desaparece, sem que disso nos apercebamos.

E é para retardar a crueldade desse processo que os patriarcas da cúria se reuniram para deliberar sobre a organização do conclave anual da seráfica comunidade de pupilos dos Professores Oliveira e Silva Pais. Os verenáveis Luis Ribeiro, José Augusto Mourão, João Cordeiro e José Augusto Pedro concluíram que a comezaina deste ano se realizará a 23 de Maio (um sábado).

Por consideração e respeitinho pela República, o abraço da praxe será dado na Praça 5 de Outubro. Para o repasto, o corpo diplomático recebeu instruções da tróica +1 para iniciar as “démarches” impostas pelo Congresso de Viena. O departamento de segurança interna e de espionagem externa deixou escapar que foi escolhido um restaurante de referência onde se poderá manducar e cavaquear à vontade. As autoridades competentes não confirmam nem desmentem. Apenas propagam que é na cidade.

Vindos de perto e de longe, haverá representantes de uma variedade de opiniões para que se passem algumas horas a discorrer sobre os tempos idos. Consta que o José Júlio Baltazar Farinha planeia uma surpresa visual. Objectivo: conversar, reviver, recordar.

Nenhum camarada esqueceu os mestres que marcaram esta geração. Ficou gravada para sempre a lembrança das primeiras aulas e daqueles dias em que se desligaram, em parte, do casulo familiar. Antes da televisão, a escola primária era o principal agente de socialização. Aquele que tecia laços firmes com as raízes culturais, em comunhão com a língua e a história dos nossos antepassados. Eram os professores e os pais que formavam os jovens cidadãos.

Olhamos para trás e vemos que muitos dos valores morais e humanos que nos incutiram não são, na actualidade, os mesmos. Uns mudaram para melhor, outros para pior. Nalguns aspectos, o mundo contemporâneo anda de pernas para o ar. Juízes que destruíram a justiça, cientistas que entortam a verdade, religiões que arruínam a espiritualidade e governos que arrasam o país.

Como nos anos anteriores, contamos com a presença de colegas que tenham andado arredados destes encontros. Noutras ocasiões, ouvimos sentidas palavras de ex-alunos mais velhos que também tiveram o privilégio de ser pupilos destes mestres sólidos e verdadeiros. Entre outros, o Joaquim Canais Rocha, o Arquitecto Jorge Ló e o Chico da Casa Nery. Alguns foram nomeados guardiães das “pucks/rondelles” para a partida de hóquei que estes atletas irão jogar no Almonda congelado. O distinto grupo de agraciados com Ratoeiras d’Ouro será enriquecido com a entronização de mais uns pares de condiscípulos.

Deixando de lado as brincadeiras, sentiremos a falta do Álvaro Manuel Alves Sequeira, da classe dos Oliveiras. Os companheiros recordar-se-ão que esteve emigrado e regressou a Portugal haverá uma quinzena de anos. Em pequeno, morou na Rua de Santa Maria. Vivia nos Pintainhos, quando ainda há pouco a Irmã Morte o veio buscar.

No virar da vida, entre o tempo e o nada, sublinhem o 23 de Maio na agenda. Nesse dia, teremos a oportunidade de trocar memórias da mesma forma como antigamente trocávamos cromos de jogadores de futebol ou das raças humanas. Mostraremos o mapa de nós e disfrutaremos das fotografias dos “Meninos da Escola”.

Até lá, um abraço grande como a saudade.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados