SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 20 Junho 2021, 17:43

Governados por trapalhões, sem moderação nem tino

Os cidadãos da maioria dos países europeus estão a ser bombardeados com elevadas doses de propaganda. Falam da luta contra a corrupção, mas quando se lê a imprensa de referência facilmente se compreende que um bom número de deputados e governantes estão mais interessados em tratar das suas vidinhas do que do bem colectivo. Por exemplo, para ser eleito para Bruxelas ou São Bento, basta encontrar-se perto do topo nas listas do partido. Nem sequer é necessário ser habilidoso na arte da lambuzadela de palavreado sem sentido, pois, com certa frequência, as ligações a sociedades mais ou menos secretas são evidentes. Claro que há excepções.

Já tínhamos redigido, para esta semana, uns parágrafos sobre Lille. Nele mencionávamos o recente julgamento de Dominique Strauss-Kahn num tribunal desta cidade do norte da França. Recorde-se que Strauss-Kahn ” (antigo director-geral do FMI), foi o ex-favorito dos socialistas para candidato às presidenciais de 2012. Homem de uma libido sem controlo, era acusado de “proxenetismo agravado em reunião”. Safou-se por um triz. Dada a importância da ocorrência, falámos com um colega que fez repetidas referências a artigos publicados na revista “L’Express”. Sublinhava em particular as dificuldades com que os juízes se depararam devido a alguns indiciados serem membros de uma sociedade secreta que tem marcado do mesmo modo a sociedade portuguesa. Quem estiver interessado, pode ir ler. Não precisamos de entrar em pormenores.

Talvez se trate de uma modalidade de poder que se traduzir por corrupção e aproveitamos para recordar aos leitores que, segundo uma votação realizada pelo Grupo Porto Editora, foi esta a “palavra do ano ”de 2014.

Quer dizer “uso de meios ilícitos para obter algo de alguém”. Mas é mais do que isso. Também significa defender um comportamento incorrecto, ou um acto insidioso e perigoso, sendo de erradicação difícil por beneficiar quem nela participa. Há países onde se tornaram raros os exemplos de cidadãos que tenham acumulado êxito pessoal com comportamentos éticos.

Esta é a democracia da direita calculista e da esquerda caviar. Não compreendemos como é que os dirigentes nacionais e autarcas não coram de vergonha ao afirmar sentirem-se orgulhos da democracia, em versão lusitana.

Só se a confundirem com a partidocracia, i.e. da democracia sem escolha. Com efeito, conseguiram blindá-la contra a participação do cidadão-eleitor enquanto indivíduo justo e honrado. Resta-lhe o “direito” de colocar uma cruz no boletim de voto com as listinhas produzidas pelas elites partidárias, as responsáveis pelas grandes jogadas.

Antes do 25 de Abril, julgava-se que nada acontecia se nada se soubesse. Na actual partidocracia, diz-se quase tudo— dentro dos limites do politicamente correcto— e também nada acontece. Antes, eram muitos a criticar os poucos que se tinham apropriado do país. Hoje, são milhões que continuam a criticar. Contudo, é forçoso reconhecer que o número de aldrabões aumentou desproporcionadamente.

Sem outra alternativa, os portugueses irão expor os corruptos e os trapaceiros que deram cabo do país e de algumas autarquias, de maneira mais que visível. Isto, para que eles saibam que nós sabemos que eles sabem. Como são tantos à solta e requintados os métodos utilizados, é difícil sonhar com um futuro digno dos cidadãos cuja participação cívica se pauta por um mínimo de ética.

Quem não conhece casos de fortunas amontoadas em poucos anos? De funcionários públicos ou políticos que vieram do nada e acumularam patrimónios opulentos? Tampouco passam despercebidas as crises de partidos onde abundam acusações escuras entre os que entram e os que saem. Num deles, um dos líderes está na prisão e o mentor sofre de demência. Estes elementos da história recente de Portugal mostram que muita coisa aconteceu nas costas do Zé Povinho.

É triste ler que a corrupção conquistou quase todos os patamares do aparelho do Estado e de bastantes autarquias. Ficamos pasmados com a retórica intrujona de tudo e de quase todos. Generalizou-se o encobrimento da putrefacção a que isto chegou.

Para cúmulo, andam a vender um novo D. Sebastião que, no meio do nevoeiro, na tradição da demagogia barata, diz aqui o que desdiz no outro lado da fronteira. Estamos à espera que proponha algo de concreto para a nação sair do pântano. Ainda não se pronunciou sobre a corrupção. Tememos que seja mais um artista com lugar reservado na lista das decepções.

Uns sorriem, quando deviam chorar com o povo. Outros fazem caretas e birrinhas acompanhadas de ameaças. Prometem demitir-se, mas não deixam o poleiro. Julgam-se donos de tudo. Nem o estilo dos primeiros nem o dos segundos assustam os portugueses.

Como é que vamos sair da crise com “democratas” desta espécie? Como é possível combater assim a corrupção? A palavra começa a ressoar como uma obscenidade.

Será que uma percentagem da nossa gente é honesta e prudente apenas às segundas, quartas e sextas-feiras?

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