SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 15:05

Depois da Bélgica, é a vez de Paris

Após as aprendizagens flamengas, estávamos há dias a passar uma vista de olhos pelo jornal “Le Monde” (28.01.2015), quando encontrámos uma frase que resume em poucas linhas o que se está a passar em França: “perda de competitividade, desemprego em alta (mais de 11%); ausência de crescimento; estado de depressão colectiva e dúvidas sobre a capacidade para integrar determinados grupos da população”.

Vem isto a propósito de uma observação feita num dos bulevares chiques, quando fomos ver o nº 15 da Avenue Président Wilson, residência parisiense do recluso 44 indiciado por fraude fiscal qualificada, branqueamento de capitais e corrupção. Perto da paragem do autocarro 63, vimos um sem-abrigo com um letreiro onde se lia: “j’ai faim” (tenho fome). Noutros sítios, dormiam nos passeios. À entrada da Avenida René Coty, próximo da estação Denfert-Rochereau, vimos barracas cobertas de plástico. Os governos recentes estão a encaminhar o país para a lixeira. Por outras palavras: parecia Portugal!

No coração do inverno, ao aconchego da lareira, raros serão os pensamentos mais calorosos do que reviver momentos agradáveis. Tudo na antecipação agridoce de um regresso a outras descobertas.

Temos um amigo que tem por diversão passar a pente fino a história de alguns bairros onde existem relações com Portugal. Pondo de lado o inenarrável “engenheiro”, talvez seja boa ideia concentrarmo-nos no Século XIX e seguir pistas deixadas por Eça de Queiroz. São às toneladas em “A Cidade e as Serras”.

Como o referido anfitrião gosta de sublinhar, o título da tradução francesa é: “”202 Champs Elysées”. Pouco a pouco, conseguiu identificar “in loco” quase todos os lugares, ruas, igrejas, teatros, cabarés, cafés e restaurantes mencionados no livro. Chegou ao extremo de descobrir o endereço da modista Madame Oriol, da empresa que organizou a viagem de Jacinto e Zé Fernandes para Portugal e até a localização do palácio nos Campos Elísios. Segundo o nosso cicerone, tudo é verídico neste romance, porém Eça soube misturar sítios e personagens. É fácil de verificar que há também muitos “faits-divers” que ele utiliza e que foram extraídos da imprensa diária, sobretudo do “Figaro”.

Nas palavras do nosso erudito guia: “Após a chegada de D. Galeão e da sua família, alojaram-se primeiro no Hotel des Saints-Pères, que ainda existe no número 65 da rua com o mesmo nome. O príncipe polaco que vendeu o 202 ao avô de Jacinto teria sido da catolicíssima família Czartoryski, que abandonou Varsóvia, depois da invasão russa de 1830. Viviam na ilha Saint-Louis, cerca da Catedral de Notre-Dame. Mais tarde, um dos seus membros, August Franciszek Józef Kajetan Czartoryski, igualmente Duque de Vista Alegre pelo lado da mãe, foi para um convento em Itália onde veio a falecer de tuberculose em 1893. Por coincidência, o ano em que Eça de Queiroz começou a escrever o romance”.

Andámos a bisbilhotar outros locais. Por ficar a caminho, passávamos com frequência ao longo dos muros do cemitério de Montparnasse. Sem estar inicialmente planeada, fizemos uma visita para ver se havia por lá alguma referência a Portugal. Encontrámos as campas de famosos escritores franceses (Baudelaire, Maupassant, Sartre, Beauvoir) e até latino-americanos (Cortázar, Fuentes, Vallejo). De portugueses? Personne! Rien!

Em anteriores visitas, nas décadas de sessenta e setenta, a presença lusitana era notável nos bairros pobres da periferia. Eram discretos e vinham do Minho, Beiras e Trás-os-Montes.

Os “banlieusards” de agora fazem jus em notarem-se e fazerem-se notar. Foi o que constatámos quando deparámos, numa travessa adjacente ao cemitério, com um grupo de jovens com ar de quem não anda satisfeito com a vida. Se os parisienses por vezes manifestam complexos de inferioridade em relação a cidades como Nova Iorque ou Londres, no que toca a “gangs” estão a ganhar o campeonato. Há “banlieues” e “banlieues”. Ninguém confunde Clichy-sous-Bois com Neuilly-sur-Seine.

Não é só uma questão de pobreza, violência e incivilidade. Temos a certeza que Eça de Queiroz teria dificuldade em integrar os “fait-divers” que hoje se publicam na imprensa parisiana. Do velhinho “Le Figaro”, lemos a reacção dos leitores. Do “Monde” as interpretações e apologias.

No nosso tempo de liceu, aprendia-se que a história da França tinha sido marcada pelo período do “terror” da revolução de 1789. Quiçá a etiqueta se aplique aos residentes de algumas zonas.

Mas Paris é Paris. Ninguém pode resistir a esta cidade que seduz sempre quem a visita. A atracção permanece para o resto da vida. O retorno é obrigatório. É o que ocorre connosco. Já estamos a planear o regresso para aproveitar da sapiência do nosso amigo e guia que tanto ama o bom e o mau da “cidade luz”.

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