SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 18 Junho 2021, 23:05

Beguinas e beguinarias, flamengos e francófonos

Como prometemos, voltamos a Bruges e partilhamos com os leitores algumas notas sobre beguinas e beguinarias. Quiçá seja um tema interessante para os tempos de hoje caracterizados pelo corre-corre constante.

Passaram décadas desde a última visita efectuada a um destes locais dominados pelo sossego. Quando frequentávamos a ULB, percorremos todo o “plat pays” e serão poucos os recantes da Valónia, da Flandres ou de Bruxelas que não conheçamos. Era hora de voltar a um lugar favorito..

Como seria de esperar, a Bélgica mudou. A demografia transformou-se e a composição étnica também. São numerosos os bairros repletos de gentes cujos avôs teriam dificuldade em apontar no mapa as cidades em que agora vivem.

Os francófonos perderam terreno com menos população activa, menor produtividade e mais desemprego. Na Valónia, o desemprego jovem é dos mais altos da Europa. Por outro lado, a Flandes vai de vento em popa com o PIB superior e quase 80% das exportações belgas. Assim, em média, cada flamengo paga em impostos uns 800 euros a mais do que um valão. Estatísticas que os separatistas da “bandeira do leão” não esquecem quando votam.

As polémicas linguísticas e o viver à custa de quem sabe produzir e vender são problemas complexos e não exclusivos da pátria de Jacques Brel e de Hugo Claus. Surpreendem-nos sempre as consequências deste processo.

Tournai? Nunca ouvi falar! Bastantes flamengos terão esta resposta na ponta da língua, quando se fala nalgumas cidades francófonas. A explicação é simples: para eles, muitas urbes são conhecidas por outros nomes. Por exemplo, a jovem e atenciosa estudante liceal a quem, numa estação ferroviária no centro da Flandres, perguntámos como se dizia Tournai em neerlandês — cidade com 70.000 habitantes. Esteve uns minutos a cogitar e teve de pedir auxilio a uma colega. Por fim, lá descobriram que era Doornik. Vem a propósito avisar os curiosos que, quando viajam de uma região linguística para outra, a sinalética utiliza o idioma local. Por exemplo: Antuérpia passa de Anvers para Antwerpen, Liège para Luik, Mons para Bergen, etc. etc. Até os anúncios nos comboios mudam de língua.

Talvez a nossa impressão seja errada, mas ao transpor a fronteira entre a Valónia e a Flandres nota-se mais actividade económica e as fábricas são novas, limpas e enquadradas no espaço que as rodeia. Os flamengos criaram nichos empresariais modernos e conseguem respirar ar puro. São bem sucedidos.

Após estas observações, passemos às Begijnhofs (“beguinarias”), verdadeiras jóias da cultura neerlandesa. Na Bélgica, ninguém deve perder a oportunidade de ver uma beguinaria. Nos tempos de estudante, visitámos as de Lovaina e de Antuérpia. Há outras. Porém, na linha do apontamento da semana precedente, limitar-nos-emos à da capital da Flandres Ocidental.

A Begijnhof de Bruges  é um belíssimo enclave fundado em 1244 e, até 1928, acolheu uma destas comunidades. Em torno do parque arborizado com fiadas de choupos, as ruas são rectilíneas e estão debruadas com uma vintena de casas de alvenaria e numerosos canteiros de flores. Trata-se, sem dúvida, de um dos complexos urbanos mais encantadores e mais tranquilos de Bruges. Um sítio que convida o turista a afastar-se de animação moderna. Simples mas peremptórios, vêem-se sinais com a palavra “Stilte” (silêncio).

No meio desta aldeia, o pequeno claustro tem um poço construído em tijolo e a exígua igreja de Santa Isabel, que ainda serve como lugar de culto para uma irmandade de beneditinas. Se o visitante for discreto, pode participar na celebração das vésperas e ouvir os cânticos das irmãs. Um local de sonho, de onde emana uma serenidade quase sobrenatural.

Afinal de contas o que são as beguinarias? São comunidades fundadas na Idade Média, nos Países Baixos e na Renânia, santuários para as mulheres que ficavam solteiras ou viúvas devido à participação dos homens nas Cruzadas. Mulheres livres, activas e solidárias que, em 1318, foram colocadas sob protecção papal. Estas instituições, financeiramente independentes, eram lideradas por uma “senhora” e eram compostas por casinhas individuais ou comunitárias, uma enfermaria e uma igreja.

De acordo com o dicionário, “beguinaria” significa vida de penitência e clausura ou comunidade de beguinas. Eram monjas sem votos que viviam em humildes residências, junto a pequenos hospitais e hospícios para idosos. Quando não estavam a tratar dos idosos e dos doentes, costuravam ou faziam trabalhos em lã e renda. Também eram elas que ensinavam as primeiras letras às crianças pobres.

Umberto Eco mencionou beguinos no romance “O Nome da Rosa”. No contexto do livro, eles estavam inseridos em movimentos heréticos perseguidos por Roma. Passados tantos séculos, revemos o termo utilizado no feminino e damo-nos conta da sua utilidade. Estas religiosas deixaram uma herança valiosíssima.

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