SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 02:39

Bruges, a Pérola da Flandres

Andando pelas terras de La Lys, rio que nasce em França e desagua no Escalda à entrada de Gante, resolvemos utilizar como base logística um “bed and breakfast” em Tournai, pequena cidade a escassos quilómetros de Lille e da Flandres. Este “B+B”, mais confortável que um hotel de cinco estrelas, situa-se num condomínio fechado, ex-convento redentorista restaurado. A última visita tinha sido há décadas. Queríamos contemplar a olho nu a transformação que a Bélgica atravessa.

Planeámos deslocações de ida e volta a diversos locais de interesse. No dia da visita a Bruges, o céu parecia feito de algodão sujo, como diria Eça de Queiroz. Uma tarde fria de fins de outono, quando o sol está baixo. Tal como nos quadros de Jan Van Eyck ou Van der Weyden.

A imagem da cidade é inseparável da ubiquidade da água. O seu período de ouro esteve associado ao comércio marítimo e ainda hoje é serpenteada por numerosos canais. Há quem prosaicamente a denomine Veneza do Norte.

Durante séculos, um braço de mar chamado Zwin ligava-a ao litoral e servia de cordão umbilical. Nesses tempos medievais, Bruges era o porto mais importante da Liga Hanseática. Cerca de dezassete nacionalidades tinham aqui representação no comércio e na navegação. Aconteceu porém que, por não ser suficientemente profundo, depressa se assoreou e, no início do século XVI, a barra ficou obstruída.

Foi de facto uma das urbes mais prósperas da Europa, o maior mercado de panos da Itália, de peles do Leste, de metais da Europa central, de lã, queijo e carvão da Grã-Bretanha, de fruta da Espanha, de especiarias das Arábias, e de vinhos do Reno e do Sul europeu. Épocas houve em que mais de uma centena de embarcações entravam no porto todos os dias. A riqueza vinha da importação e da ulterior exportação destes produtos. Floresceu sob os duques de Borgonha que, em 1429, a elevaram a capital dos seus domínios. Pelo casamento, conseguiram juntar-se à realeza: Felipe “o Bom” casou-se com Isabel de Portugal e Carlos “o Temerário” com Margarida de York.

Há muito que os portugueses estavam ligados a esta região. Segundo Oliveira Marques, uma filha de D. Afonso Henriques ter-se-ia casado com o Conde Filipe da Flandres. Além de alianças politicas, sempre existiram trocas comerciais com esta parte da Europa. Em meados do século XIV eram tantos os mercadores portugueses em Bruges que se criou uma feitoria. Exportávamos frutos secos e passados, sal, vinho, azeite e cera. Importávamos sobretudo têxteis, mas também madeira, cavalos, armas e munições. A feitoria foi mais tarde transferida para Antuérpia.

Depois vieram os Habsburgos e a Espanha. Deixaram, como a Borgonha antes deles, sinais da sua passagem e da sua influência. Após o casamento de Maria de Borgonha com Maximiliano da Áustria, a cidade entra num certo declínio. Entre 1794 e 1814, é ocupada pelos franceses que, pelo Congresso de Viena, são forçados a entregá-la à Holanda. A estagnação económica dos séculos XVIII e XIX ajudou a preservar o edificado. Com a fundação do Reino da Bélgica, em 1830, é nomeada capital da Flandres Ocidental.

Os documentos antigos mostram Bruges apinhada de navios. As únicas embarcações que circulam agora são barcaças e botes equipados para turistas que se reflectem no espelho irregular dos canais bordejados de tílias, salgueiros e choupos.

O que os visitantes vêm procurar é a recusa inabalável de poluição visual. De geração em geração, os vereadores fizeram o mínimo de concessões às modernices. Assim, não deparamos com reclames de néon ou desagradáveis painéis publicitários tão comuns noutros sítios. Aqui, os anúncios são raros, os sinais discretos e a sinalética integrada no que é tradicional.

Também a cozinha flamenga atrai os apreciadores da boa comida: lebre e coelho com ameixas, “carbonades” de carne de vaca cozinhadas em cerveja, galinha preparada em “waterzooi” (caldo de carne e creme de leite), enguias em molho verde (no qual entram agriões, cerefólio e estragão aparecem nas ementas dos restaurantes.

No entanto, o que mais nos impressionou foi a paz e sossego da “Begijnhof” (“Béguinage” em francês) que, do século XIII até data recente, abrigou uma comunidade de beguinas ou freiras mendicantes. É este lugar que melhor revela algo de essencial na alma de Bruges. Trataremos desse tema na próxima semana.

Alguém disse que o “presente” não existe. O presente é apenas o encontro do passado com o futuro. Pois bem, o velho leão de Flandres, da espécie “Vlaamse Loew”, não está morto. Ele ruge de novo numa Bélgica que se reinventará.

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