SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 15:09

Desassossego torrejano e chichi belga

Estamos repartidos na escolha do tema para esta semana e alguns leitores compreenderão o motivo desta hesitação. Talvez seja de interesse para os membros da comunidade que ainda acreditam na Lei e na Ordem. Alguns duvidam da sua utilidade. Com tanta gente refastelada nos sofás do silêncio, é melhor falar de problemas estrangeiros para não tratar dos nossos. A cidade está entregue à bicharada: pombos seráficos, lagartos, raposas matreiras, ratazanas e outros que tais.

Tínhamos guardado uma crónica sobre assaltos em Torres Novas que Joaquim Canais Rocha publicou neste jornal em 2011. Dizia que as pessoas com quem tinha falado andavam preocupadas. “Todos afirmam que a cidade não tem o policiamento necessário com a sua dimensão, particularmente à noite. E defendem que o policiamento no centro histórico devia ser feito a pé e não de carro como acontece. Daí apelarem a quem de direito para que a cidade, à noite, possa ser mais segura. Muitos munícipes nos têm dito que têm medo de sair à noite. Em particular donas de casa, porque sentem uma falta de segurança nas artérias principais da cidade, porque não conseguem ver um Polícia sequer”.

Quase quatro anos após a publicação destas linhas, efectuou-se na última quinzena mais uma série de ataques à propriedade alheia, inclusive invasões de residências. Uma casa foi assaltada três vezes. Alguns destes assaltos realizaram-se a meio da tarde. É obra! Por acaso, a uns passos do posto da PSP.

Voltando ao amigo Canais Rocha, reparámos que opinava o seguinte: “estes assaltos também estão relacionados com a impunidade que grassa no País. O que desmobiliza um pouco as forças policiais que arriscam a vida na sua missão e depois sentem-se frustradas por tudo aquilo que acontece a seguir”.

A situação continua na mesma. Não é nada fácil ser-se polícia no Absurdistão lusitano, pois o Estado manda caçar leões com uma rede de apanhar borboletas. Muitas leis protegem mais a vadiagem do que os cidadãos respeitadores e os agentes da autoridade. Como se podia ler no “I” (27.10.2012): “Até os polícias já emigram”.

Anda a circular na internet uma frase de F. Scott Fitzgerald tirada do romance: The Great Gatsby. Diz que “o momento mais solitário na vida de alguém é quando vê o mundo a cair aos bocados e tudo o que pode fazer é olhar esgazeadamente, sem entender o que se está a passar”.

É o que milhões de europeus estão a sentir depois dos horrendos acontecimentos de Paris e pelo que podia ter sucedido às forças de segurança na Bélgica. Foi por um triz. E, já agora, acrescentamos que traduz à perfeição o que os torrejanos sentem quando observam a decadência do casco histórico da cidade.

Mas mudemos de assunto. Passemos então ao “Plat Pays” de Jacques Brel para chegar à estátua do Manneken-Pis, o célebre menino a fazer chichi. A federação belga tem impasses diferentes dos nossos, porém, em ambos os casos, a resolução será dolorosa.

É um país com duas nações: a maioria flamenga que fala neerlandês e os valões de expressão francesa. Além destes grupos (com cerca de dois-terços e um-terço da população) há uns 70.000 falantes de alemão (a terceira língua oficial), que vivem ao longo da fronteira leste. É um estado com diferentes comunidades linguísticas e geografias separadas. E, se nos permitem a ironia, temos de lhes juntar os batalhões de políticos, advogados, lobistas, consultores de gestão e um número revelador de penduras que sugam, ou sonham poder vir a sugar, o dinheiro esbanjado na Euroforia.

Ressalta, contudo, um denominador comum: o amor pela gastronomia, pela cerveja e pelos chocolates. Dos milhares e milhares de cervejarias, cafés, restaurantes e estaminés de todo o género, recomendamos o Delirium Tremens Café. Ufana-se de servir 3162 marcas de cerveja e está no Guinness desde 2004. Ninguém os bate. A apreciação da Kriek é incontornável. Esta é fermentada ao ar livre, com bactérias naturais apenas encontradas nos campos ao redor de Bruxelas.

Quando vivíamos na pacata capital, na época do rei Balduíno, aprendemos que os belgas bebem vinho ao jantar e cerveja durante o resto do tempo. E não se ficam pelas populares Stella Artois e Jupiler. Como mencionámos, a escolha é vasta. Incluindo algumas com um teor de álcool que ultrapassa os 10 graus. Remédio santo para não se deprimirem com a constante chuva miudinha. Em torno da Grand-Place e, de facto, em qualquer recanto do país, encontramos outra cura para os dilemas existenciais: os chocolates. Quiçá os melhores do planeta. Quem não conhece Godiva, Leonidas, Wittamer, Neuhaus? Quanto aos excelentes restaurantes, nem vale a pena falar. É só escolher.

As sociedades actuais confrontam-se com problemas para os quais não conseguem tomar as decisões que se impõem. Torres Novas está como está. A Europa vai pelo mesmo caminho. Os governantes repetem o que um condiscípulo gostava de dizer, um “bon vivant” com uma carreira brilhante no sector público. “Ça marche! Pas de souci!” (tudo bem! não há problema!). Após a aposentação, começou a pensar de outro modo.

Como se constata na foto, o Manneken-Pis é que tem a solução para os desafios sociais contemporâneos. Da Bélgica, de Torres Novas, do mundo inteiro. Um revoltoso e destemido chichi.

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