SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 20:43

O Mont-Saint-Michel, a “nossa“ França

Não comentaremos as barbaridades cometidas em França. Como é sabido, criou-se uma atmosfera de intimidação insana que atinge todos. Embora a liberdade de imprensa faça parte do pacote democrático, a autocensura é uma realidade aqui e alhures. E a ameaça constante também. Será necessário elaborar este ponto? É tão fácil dizer que todos somos “Charlie Hebdo”! Árduo é fazer algo para resolver o problema.

De qualquer forma, e em solidariedade com os amigos e colegas franceses, dedicamos estas linhas a um dos locais marcantes da sua história que também faz parte da nossa herança cultural. Há quem diga que o passado não existe, excepto na memória. Talvez não seja bem assim.

Se há viagem que jamais esqueceremos foi a que efectuámos recentemente ao local mais visitado, logo a seguir à Torre Eiffel.

No extremo sudoeste da Normandia, pegado à Bretanha, “Le Mont-Saint-Michel est à la France ce que les Grandes Pyramides furent à l’Égypte » (o Mont-Saint-Michel é para a França o que as Grandes Pirâmides foram para o Egipto). Assim opinou Victor Hugo. Quiçá tenha exagerado. Indiscutível é que, já antes do ano 1000, ele se tenha transformado num dos destinos das peregrinações que alicerçaram a cultura europeia. Ninguém fica insensível ao poder assustador deste monumento. Ele desafia o tempo e é reconhecido como uma das maravilhas do mundo.

O Mont-Saint-Michel surge onde o céu, a terra e o oceano se combinam. Um monte rochoso, sublimado pelos homens num sonho de arquitectura para glorificar Deus. Ainda hoje continua a ser um dos pontos mais fantásticos da França.

Trata-se de um repto, uma aposta realizada num equilíbrio de 157 metros de altura. Foi construído por monges enamorados com a beleza do sítio e determinados a superar o peso da estreiteza deste rochedo granítico. E que panorama! Um quadro quase bíblico onde sobressai a conjugação céu-terra-água, à qual não faltam areias movediças que, tal como o Inferno, devoram as almas perdidas. Terrenos varridos por marés galopantes. Difícil de imaginar uma diferença de 15 metros entre os níveis da preia-mar e da baixa-mar, o equivalente à altura de um prédio de cinco pisos. As águas avançam à velocidade de um metro por segundo. Ainda mais durante os equinócios. Isto não é ficção, é verdade.

Ao anoitecer, quando os turistas desaparecem, ouve-se o lamento do vento a deslizar pelas velhas pedras. Esmagados pela silhueta invisível da abadia, os privilegiados que por aqui se alojam agradecem, em espirito, o génio e a tenacidade dos homens que ergueram este monumento imponente. Através dos séculos, o lugar simboliza o misticismo religioso da cristandade medieval no Ocidente. Um autêntico hino milenário à espiritualidade.

A região é deveras fascinante, devido à sua história e também à gastronomia. E não é só por causa das sumptuosas omeletes/soufflés da Mère Poulard. De facto, a Normandia atrai os amantes da boa comida. Mencionamos, entre outros exemplos, que é terra de queijos famosos (100.000 toneladas anuais de camembert, neufchâtel, pont-l’évêque, livarot), de excelente marisco, de trezentas variedades de maçãs, de cidras, e de calvados, grande rival dos afamados conhaques e armanhaques. Sublinhe-se que também é célebre pelos borregos de “pré-salé”, alimentados nos prados arenosos do litoral, onde o pasto perfumado é rico em iodo e sal. Têm a carne mais saborosa que tivemos ocasião de provar.

A nossa visita realizou-se a 30 de Novembro, primeiro domingo do Advento. Por sorte, ao chegar à igreja abacial, pudemos assistir a uma cerimónia religiosa dos monges e monjas das Fraternidades Monásticas de Jerusalém. Não faltaram cânticos gregorianos e incenso. Registámos as seguintes linhas do Salmo 79: “Réveille, ô Dieu, ta vaillance et viens à notre secours” (Desperta e vem salvar-nos com o teu poder!). Parecia que estavam a adivinhar. Uma premonição? O ambiente fez-nos recordar um romance de Umberto Eco.

Sim, esta foi uma visita que não esqueceremos. Após as atrocidades da semana passada, contextualizamo-la numa perspectiva histórica, fora dos desfiles de políticos-charlots. A nossa intenção não é “charlizar” o que ocorreu em Paris, é reflectir sobre os actuais cenários europeus próprios de uma civilização em vias de perder os seus valores fundamentais.

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