SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 19:44

Natal com presépio à antiga

É um prazer descobrir que o carteiro ainda nos traz cartões de Boas Festas na primeira quinzena do terceiro milénio. Alguns vêm como se fazia noutros tempos, com a elegância da caligrafia aprendida nos cadernos de duas linhas, da tinta permanente e do selo bonito a franquear o envelope.

Apesar destas excepções, constata-se que, por mil e uma razões, robotizaram esta época do ano. Com luzinhas de pisca-pisca e decorações a primor, criam-se cenários que a todos encantam mas cujo proveito espiritual é escasso ou nulo. No meio da confusão, cada vez se ouve menos os anjos de Belém a cantarem: “Glória a Deus, paz aos homens”! O Natal devia ser Natal. E pronto!

Para as gerações de agora, pauteadas pelo materialismo hegemónico, estas festas são sinónimo de mimos impessoais, brinquedos, gulodices e comezainas requintadas. Não sabemos quanto os portugueses irão gastar em prendas, lemos porém num diário de Bruxelas que os belgas tencionam desembolsar uma média de 190 €. Menos do que os alemães (200), franceses (300) e britânicos (440). No que toca à consoada, as despesas das famílias belgas devem ficar por volta de 500 euros, como em 2013. Um pouco acima da média europeia que ronda os 450.

Consumo é a palavra de ordem e é difícil compreender a verdadeira mensagem. A glória pertence a um vocabulário do passado e a humanidade está em vias de esquecer o que significa a paz. No mundo contemporâneo, os anjos mal sobrevivem e, por vezes, ninguém sente ânimo para os acompanhar em cânticos celestiais.

É evidente que existem outras dimensões deste dilema. Assim, surpreendeu-nos o debate sobre os presépios em França. Vimo-lo num canal de televisão parisiense. De um lado, um defensor da separação entre Estado e Igreja. Do outro, um autarca que tinha autorizado a sua armação à entrada da Câmara Municipal.

O primeiro apoiava-se numa lei de 1905 que, em defesa da laicidade, não permite qualquer exibição de sinais religiosos em edifícios públicos. Mesmo sem ser crente, parecia um pregador da Semana Santa: “A Lei foi respeitada. Em nome do secularismo, não podemos permitir hoje em França que um símbolo religioso, qualquer que ele seja, possa pôr-se em destaque num espaço público”. Em seguida, arengou sobre os aspectos pagãos das festas natalícias.

O defensor dos presépios afirmava que a decisão dos tribunais despreza a constituição. Segundo ele, logo no início, vem estipulado que a constituição francesa respeita as crenças dos cidadãos e que respeitar quer dizer reconhecer a importância. A cena da natividade pode ser considerada na sua dimensão histórica e não apenas religiosa. Com efeito, o nascimento de Jesus constitui igualmente um facto histórico.

As intolerâncias deixam-nos sempre incomodados, pois há casos em que é bastante fina a linha que separa o laicismo totalitário da imposição religiosa. Seria absurdo abolir o Natal. Ele traz-nos uma réstia de esperança colocada ao lado do coração. Diz-nos que apesar das ganâncias materiais, o mundo pode ser muito melhor.

E que dizer destas disputas? Que importância têm as divisões entre certezas e dúvidas, se continuarmos com a convicção e o empenho de quem honra uma tradição imprescindível.

Para cristãos e ateus, para mações laicos e ratinhos de sacristia, para todos os que vivem a correr de casa para o trabalho e do trabalho para casa, os nossos votos de Boas Festas.

Feliz Natal!

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