SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 08:12

Pão caseiro, um produto de excelência

Entre o lusco e o fusco, após um chuvisco que se antecipou ao fim da tarde quase invernal, estamos a olhar o brilho da relva do jardim. Tínhamos lido na internet que nevava em Ottawa e imaginámos como seria engraçado convidar amigos canadianos para partilhar o lanche de chouriça assada e pão quentinho. Por coincidência, a ouvir o “Panis Angelicum” (pão de anjo) cantado pelo Pavarotti num velho e esquecido CD.

Os membros do nosso círculo de amigos são adeptos da comida caseira e gostam de preparar pitéus de toda a espécie, de preferência a partir do zero, com ingredientes biológicos produzidos nas cercanias.

Um desses companheiros gosta de fazer pão. É de origem italiana e diz que se lembra de todo o processo: as mulheres reuniam-se junto ao forno de lenha amassando a farinha e cozendo o suficiente para alimentar a família durante a semana. Também nós nos recordamos das carcaças rústicas que apareciam na ex-vila torrejana. Na juventude, vimos uma senhora das Lapas a preparar, com a sabedoria acumulada de geração em geração, o melhor pão que jamais tivemos a oportunidade de saborear.

Em comparação, o que se vende actualmente nos supermercados é sem dúvida mais manhoso e menos nutritivo. Basta ler a lista dos elementos que integram a mistura.

Felizmente, existe quem aposte na recuperação dos conhecimentos que se foram perdendo e tente fazer ressuscitar os aromas e sabores de outrora. Não hesitam na defesa de uma produção mais orgânica e simples. O consumidor, desconhecedor do que come, não devia delegar aos industriais da moagem e panificação decisões sobre a sua alimentação. Os lucros do negócio nem sempre coincidem com a saúde dos consumidores.

Num país que há muito é vítima de crises de toda a espécie, onde os cidadãos têm sido defraudados pelos políticos e pelas “lojas” de extorsão a eles associadas, é fácil constatar que não acreditam em ninguém. Nem em nada, diga-se de passagem.

Dito isto, que reflecte o sentimento geral dos portugueses, gostaríamos de partilhar mais um testemunho de que ainda temos coisas boas em Portugal.

Falámos de feijão na semana passada. Hoje, salientamos outro produto merecedor dos maiores encómios: o pão. Já aqui abordámos o tema há quatro anos. Cremos ter mencionado que na capital canadiana existiu uma padaria açoriana cujos clientes faziam bicha para comprar carcaças, papo-secos e broa de alta qualidade. Houve igualmente um português do Manitoba a quem foi outorgado o título de melhor padeiro do Canadá.

Sempre que estamos em Cascais, compramos o da Lagoinha, em cuja composição apenas entram farinhas de trigo e de centeio, levedura, água e sal. Aparece no “Jumbo” e, pelo menos, no “Corte Inglés”. É o nosso favorito. Descobrimo-lo em Palmela. É sempre bom, chegando a óptimo quando bem cozido.

Ainda há dias comemos excelente pão parisiense. Comprámos uma “baguette” numa padaria da Rua de Tolbiac, já perto da Avenue d’Italie.  Segundo lemos no papel que a embrulhava, o seu fabrico respeita o decreto-lei 93-1074 sobre a apelação de origem francesa. Noutra ocasião, regalámo-nos com outra variedade identificada como “Campaillette des champs”. A que acrescentaram “com os aromas doces e arredondados do fermento de centeio”.

É verdade que se come bem em qualquer região do Hexágono gaulês. Porém, em questões de padaria, gostamos mais da Lagoinha (Maranata). A melhor a que temos acesso na área metropolitana de Lisboa. E, neste domínio, forçoso é reconhecer que os nossos padeiros são campeões. Estão à altura dos melhores e, chauvinismos à parte, acreditamos que ninguém os bate!

Um pequeno bemol que faz desafinar a música. Imagine-se que mal chegado do aeroporto, passámos pelo supermercado onde nos abastecemos em Cascais. Dirigimo-nos de imediato à secção do pão. Um sortido imenso, mas a prateleira do Lagoinha estava vazia. Pensámos que era por ser sábado e por se aproximava a hora de encerrar. No domingo à tarde, também se tinha esgotado. No dia seguinte, tivemos a felicidade de encontrar o nosso admirado. Mais uns minutos e quiçá perdurasse a nossa frustração, pois era o único que restava.

Hoje em dia já não se ganha o pão com o suor do rosto, como diziam os antigos. É mais fácil entrar nos jogos da corrupção. Com obra feita! Como falam tantos autarcas e outros politiqueiros da nossa praça.

No entanto, ainda sobrevivem crentes que memorizaram o Pai Nosso em latim e dizem o seguinte segmento: “Panem nostrum quotidianum da nobis hodie”.

Sim, dai-nos o pão-nosso de cada dia. De preferência, estaladiço como o dos velhos tempos. Sem químicos nem outras mistelas.

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