SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 18 Junho 2021, 22:53

Um voto para o feijão

Quando estivemos em Lisboa, na primeira semana de Outubro, um familiar presenteou-nos com um saquinho de feijão que, no Canadá, é conhecido por “cranberry beans“ou “cannelini”. Recordamos que, nos idos da juventude, apareciam pelos meados do verão. Vendiam-se frescos na vagem e eram depois descascados em casa. Tantas vezes os mencionámos numa mistura de saudades e admiração que a pessoa acima referida, ao vê-los no mercado de Arroios, lembrou-se de nós. Cozinhámo-los com tomate, azeite e ervas aromáticas. Uma delícia.

Não é para estranhar que este e outros legumes, como as lentilhas, favas e ervilhas, se encontrem na lista dos primeiros produtos agrícolas, quando os nossos antepassados se sedentarizaram após milénios a sobreviverem da caça e da recolecção.

Os legumes têm um valor nutritivo elevado. Até a Bíblia o reconhece e esse facto talvez seja desconhecido de muitos cristãos. Já Daniel, o quarto e último dos grandes profetas que foi deportado para a Babilónia, ao ser-lhe oferecida a mesma comida que era servida ao rei Nabucodonosor pediu para que não lhe dessem senão legumes para comer e água para beber. Após dez dias neste regime, constatou-se que tinha melhor aspecto e estava mais robusto do que os seus pares que se alimentavam com os acepipes e iguarias servidos à mesa real. Isto não surpreenderá os especialistas em nutrição humana visto que está provado, há bastante tempo, que as proteínas das leguminosas atingem percentagens superiores às da carne ou do peixe.

As variedades hoje predominantes à escala universal foram domesticadas há cerca de sete ou oito mil anos no continente americano. Até se pode afirmar que o seu cultivo foi introduzido no Velho Mundo pelos espanhóis. Cristóvão Colombo descobriu que as espécies das Américas eram diferentes das que existiam em Espanha e que, na América do Sul, esta cultura se fazia com a das abóboras e do milho.

Os feijoeiros vindos nas naus hispânicas foram transplantados para uns mosteiros de Sevilha, cujos monges julgaram por bem brindar alguns especímenes ao papa. Em Roma, a população ficou cativada pelo gosto e também pela facilidade com que podia ser cultivada. Em seguida, Catarina de Médicis, parente de Leão X, levou-a para França ao casar-se com Henrique II. Era o feijão romano ou feijão pintado referenciado publicações da época. Ou as “fèves de haricot” (favas de feijão).

Vem a propósito citar umas palavras de John Steinbeck, encontradas em “Tortilla Flat”. Neste livro, o Nobel da literatura escreveu que, para os pobres da Califórnia, “beans are a roof over your stomach. Beans are a warm cloack against economic cold” (os feijões são o telhado que protege o estômago, um casacão quente contra a friagem económica). Tal como as tortilhas de milho, constituem, ainda hoje, o sustento de base dos mexicanos.

Sem esta leguminosa seria impossível saborear um “cassoulet francês”, uma feijoada brasileira ou o chispe com feijão branco lusitano. No que nos toca, preferivelmente cozinhado pela Zima, mãe do autor destas linhas. Ainda hoje recordamos com alguma nostalgia esses pratos simples mas gostosos, preparados por uma cozinheira habilíssima, de mão cheia, como se dizia antigamente.

Contudo, os locais mais indicados para descobrir a gastronomia tradicional talvez sejam os velhos mosteiros e conventos. Há muitos anos, fomos com um colega de Santiago de Compostela visitar o mosteiro de Samos, uma das paragens dos peregrinos “del camino”. Recordamos ter ouvido que os beneditinos mantiveram o hábito de cozer feijão em leite que, em seguida, era servido com mel. Segundo a tradição, esta receita tem mais de mil anos e data dos tempos em que o rei Afonso “O Casto” foi educado por estes monges.

Confirmámos que os feijões ainda servem para preparar doces magníficos, quando, no sábado passado, comprámos no mercado, junto ao rio Almonda, uns torrejaníssimos pastéis de feijão. São do fabrico da Senhora Helena Inácio, que também vende os célebres bolos de cabeça da Ribeira Ruiva.

As coisas são como são e por vezes as mais humildes ou pequenas tornam-se grandes mistérios. E vice-versa. Com os recentes acontecimentos em torno do antigo primeiro-ministro socialista, ouvimos mesmo um comentador explicar que José Sócrates “não andava a jogar a feijões”.

Quiçá tenhamos de interpretar essa expressão de outra forma. Com efeito, os feijões valem mais do que a palavra dos politiqueiros deste Portugal abatido por maleitas quase incuráveis. Em conclusão, seria mais saudável votar nos feijões!

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados