SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 15:42

Belfast tristonha, agora sem bombas

A antiga província do Ulster, composta por nove condados, foi partilhada em 1921. Seis ficaram a fazer parte da Irlanda do Norte. Os outros três (Cavan, Donegal and Monaghan) da República da Irlanda. Bastantes leitores associarão esta província do Reino Unido com uma guerra civil que julgavam ser interminável.

Após cerca de trinta anos de violentos conflitos entre católicos e protestantes, um acordo de paz foi assinado a 10 de Abril 1998, uma Sexta-feira Santa, pelos então primeiros-ministros Tony Blair e Bertie Ahern, e por outros líderes tanto do campo nacionalistas como unionistas. No referendo que se seguiu, 74% dos cidadãos da Irlanda do Norte e 94% dos da República votaram a favor. Assim, desde 2007 que católicos e protestantes partilham o poder. Talvez tenha chegado a pacificação desta terra tão sacrificada por discórdias religiosas.

Embora as bombas tenham deixado de rebentar há mais de uma década, quem se esqueceu do IRA (Exército Republicano Irlandês) e da sua luta contra os protestantes de origem inglesa e escocesa?

De qualquer modo, um colega que ensinou numa universidade local, aconselhou-nos a não falar de política. Ainda menos de religião. Como seria de esperar, o aviso não impediu que nos mantivéssemos atentos a tudo o que nos iam dizendo. Também nos esclareceu que jamais devíamos misturar o que é irlandês com o que é britânico. Com efeito, casos complicados, como o assalto ao Northern Bank que rendeu 38 milhões de euros, são logo imputados ao IRA, o braço armado do Sinn Féin (esquerda socialista).

Para quem viaja de Dublin para a Irlanda do Norte que, repita-se, faz parte do Reino Unido, a fronteira é imperceptível. Notam-se mais diferenças ao atravessar a raia luso-espanhola. Só nos demos conta que estávamos noutro país, ao entrar num restaurante e ver os preços em libras esterlinas. A divisão é mais arbitrária do que parece à primeira vista e, se o centro resistir, desaparecerão os extremistas. Sejam eles da direita ou da esquerda.

Chegados a Belfast, capital do Ulster, reconhecemos de imediato que a cidade beneficia de alguns trunfos. Sobressaem o imponente edifício da Câmara Municipal dos fins do século XIX, o extraordinário campus da Queen’s University e o Titanic Quarter, onde se construiu o navio com o mesmo nome. Este, desde que abriu em 2012 com dinheiro da União Europeia, tornou-se num dos grandes sucessos turísticos de toda a ilha. Mais de um milhão de visitantes por ano.

Os preços praticados nos restaurantes, “pubs”, teatros e vida nocturna em geral são mais acessíveis do que a sul da fronteira, onde o nível de vida é superior. Claro que a utilização do euro, versus libra esterlina, constitui um elemento importante nesta dicotomia.

A primeira impressão foi análoga à que tivemos quando, em 1965, visitámos Berlim pela primeira vez. Fomos de comboio pela ex-República Democrática Alemã, em plena Guerra Fria, quando os tanques soviéticos se passeavam pelo sector americano para provar que tinham esse direito. Segundo consta, ainda há poucos anos, o cenário em muitos bairros de Belfast era idêntico. De facto, a Irlanda do Norte estava ocupada. Ocupada pelo exército britânico, mas também pela apreensão colectiva e, ao terror das bombas, sucedeu-se uma civilidade de enfado inquietante.

Depois de um passeio pela Baixa, fomos até às ruas Shankill e Falls para admirar as pinturas murais de cariz político—mais apropriadamente“graffiti”. Protestantes na primeira área e católicos na segunda. Sentimos uma tristeza profunda ao deambular pelos bairros marcados por tantos atentados fratricidas. Quiçá se deva questionar a aceitação da paz putrefacta que existe entre unionistas e monárquicos. A imensa fealdade dos grafitis impressionou-nos pela negativa.

Franqueza franquezinha, tal como tínhamos notado na Alemanha dividida, também aqui nos invadiu a mesma sensação. A população aparentava um ar triste, para não dizer deprimido. Faltava-lhe a “joie de vivre” dos dublinenses. E não era por causa do mau tempo, visto que tivemos sorte e, se bem que outoniço, o sol esteve sempre presente.

Até a comida nos deixou com pouca vontade de voltar. O “Ulster fry”, prato semelhante ao pequeno-almoço irlandês, que é servido em todos os restaurantes e a qualquer hora do dia, é mais pobre e menos atractivo. Nem morcela tem!

Embora socialmente obscura, nenhuma pessoa fica à margem da história. É verdade que ser islandês é viver a experiência da Irlanda, quer católica quer protestante. Isso é a sua glória e o seu fardo. Por vezes, quiçá também a sua tragédia e vergonha.

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