SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 15 Junho 2021, 17:48

Waterford, terra de cristais e de vikings

Chegámos numa mistura de nevoeiro e chuva tão miudinha que a pele mal distinguia as gotas separadas, mas, quando nos registámos, o rés-do-chão do hotel estava animadíssimo. Cerca de uma centena de clientes enchiam o bar e o restaurante do bonito edifício que tinha sido a mansão de Thomas Meagher. Esse ilustre habitante fez fortuna com a importação de bacalhau e o filho desenhou a bandeira tricolor irlandesa. Também serviu como general na Guerra da Secessão americana e governador do território que viria a ser o Estado de Montana.

Há décadas que planeávamos visitar Waterford. Queríamos ver a fábrica e o museu dos cristais com o mesmo nome. Trata-se de uma marca internacional presente nas mesas elegantes de muitos países. É a graça criada pelo fogo. No estilo dos Orrefors e Kosta Boda suecos, Val Saint Lambert dos belgas, Baccarat dos franceses com dinheiro ou das Cristalleries d’Arques para os menos abonados e, até data recente, da Atlantis portuguesa.

É também considerada a cidade mais antiga da Irlanda, onde ainda existem ruas traçadas pelos vikings. No entanto, foi a indústria vidreira que lhe deu fama. As suas duas catedrais de referência histórica e uma vida nocturna animada atraem milhares de turistas. Há bares e hotéis em abundância.

A área é igualmente conhecida por ser bastante soalheira, possuindo esplêndidos lugares de vilegiatura junto ao mar. As praias são de areia fina e só é pena a água ser tão fria.

Situada no estuário do rio Suir, compreende-se que tenha sido um dos primeiros portos e capital dos vikings. Chamava-se então Vadrafjordr e a sua fundação data de 914. Porém, em 1169, não resistiu às incursões anglo-normandas de Strongbow e ao consequente controlo pelos monarcas Plantagenetas de Inglaterra.

O ex-libris é a Torre de Reginaldo, cujos alicerces datam do século XI. Há quem diga que aqui se celebrou o casamento de Strongbow com Aoife, filha de Dermot MacMurrough, rei do Leinster, do qual resultou a união dos invasores com os nativos. Uma estátua em bronze do casal recorda esse momento. A verdade é que a ilha jamais seria a mesma, pois abriram-se as portas à submissão pelos estrangeiros.

Sublinhe-se que as conquistas nunca foram completas. Foi o que nos explicou um motorista de táxi. Com o palavreado típico deste povo, tentou convencer-nos que, embora os seus antepassados vivessem no litoral da região há mais de um milénio, não é irlandês mas viking. Afiançava que os pagãos escandinavos perderam a cultura de origem após a conversão ao cristianismo.

Depois, já noite, fomos caminhar no cais do Suir e, à luz húmida do burgo, pensámos que devíamos ter dito ao guia turístico que não partilhávamos a sua opinião.

Voltemos contudo aos copos, garrafas e outros artefactos do mesmo género. O passeio pela fábrica fez-nos reflectir sobre 200 anos de história industrial. A magia do forno a temperaturas superiores a mil graus! Mestres em lapidagem a moldarem o cristal líquido como se fosse um diamante. Luz, calor e habilidade. Admirámos toda esta mutação de bolas de cristal em formas requintadas.

À saída do museu dos vidros, entrámos numa padaria e comprámos um pão de trigo feito com soro de leite coalhado. Seguimos à letra as recomendações impressas no embrulho. Cortámo-lo em fatias grossas e barrámo-lo generosamente com manteiga artesanal. Se bem que sóbrios na utilização de gorduras, num breve interlúdio, apreciámos a indulgência irresponsável do prazer renegado. Uma inspiração para os apetites do corpo e da alma.

Relembramos agora o “pequeno-almoço irlandês completo” (ovos, bacon, salsicha, feijão, rodelas de morcela preta e branca, tomate frito, cogumelos, batatas e chá forte), com o pão preparado com cerveja preta. Simbiose de textura e sabor, fogo e terra, sol e chuva. Um pacto de substância e símbolo. Memorável, ou assim nos pareceu, aquele pequeno-almoço servido no hotel de Waterford.

A mente espirala para diante. Ainda com o sabor incomparável de uma “O’Hara’s Irish Stout” produzida na vizinha Carlow, concluímos com um “sláinte!” gaélico ou, para não ofender ninguém, “cheers”. À inglesa!

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