SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 18 Junho 2021, 21:34

Nantucket e Baleeiros

A chuva chegou e fomos forçados a alterar os planos para a tarde. Em vez da habitual caminhada até à Boca do Inferno cascalense, optámos pela secura da sala de trabalho. E, no arrumo de livros na estante, encontrámos “Baleeiros do Faial”, da autoria de João Carlos Lopes. A ficha técnica informa tratar-se da versão abreviada de um trabalho de licenciatura em antropologia, apresentado na Universidade Nova de Lisboa, no ano lectivo 1982-83. O aspecto gráfico é cativante e também dá gosto reler o texto. A qualidade é de tal calibre que quase nos esquecemos que foi redigido no quadro de uma cadeira de primeiro-ciclo. Podemos assegurar que, no seu conjunto, é comparável ao que se faz nas boas instituições de investigação à escala mundial. Apraz-nos sempre salientar que nem todos os diplomados são da “academia” Sócrates, Vara, Relvas e outros no género, alguns nossos conhecidos. Ouro é ouro e pechisbeque é pechisbeque. Nada de confusões.

Andava o pensamento nestas divagações, quando chegámos à página 25 e deparámos com alusões à inserção dos Açores na geoeconomia da caça à baleia. Por exemplo, “os açorianos eram recrutados, no início, para a realização dos trabalhos mais pesados da marinhagem, e as primeiras referências à presença de portugueses na baleação americana surgem em 1842, na altura em que já centenas de açorianos trabalhavam a bordo das ‘whalers’ americanas. Em 1851, Herman Melville nota que ‘um não pequeno número de baleeiros procedia dos Açores, onde, frequentemente, as barcas de Nantucket lançavam âncora para completar com entroncados campesinos dessas ilhas rochosas, as suas tripulações”.

Ora bem. Nantucket, um dos portos desta faina, servirá de tema aos parágrafos que rabiscámos esta semana.

Em Setembro, durante as férias no litoral da Nova Inglaterra, além da acostumada estadia em Falmouth (Cape Cod) com a torrejana Maria Cremilde Carvalho Butler, natural do Vale da Serra e assinante deste semanário, fomos convidados para ir passar um dia em New Bedford, outro centro histórico associado à caça da baleia.

Em geral, os nossos compatriotas sabem que se trata de uma das maiores aglomerações lusas nos EUA. Ainda hoje, uma elevadíssima percentagem da população tem patronímicos de origem portuguesa. Também é nesta cidade que está sedeado o famoso Museu da Baleia, de grande relevância para a afirmação sociopolítica das comunidades açoriana e cabo-verdiana.

A visita ao referido museu espevitou o nosso interesse pela baleação e, dias depois, decidimos ir ver a ilha que João Carlos Lopes menciona no seu estudo sobre os baleeiros: Nantucket. É um local marcado por magníficas moradias do século XIX, mandadas edificar pelos comandantes dos navios baleeiros e outros novos-ricos ligados, em tempos idos, ao negócio do óleo destes cetáceos. No presente, são numerosas as estrelas de Hollywood e os políticos de Washington que aqui veraneiam. De facto, não é raro encontrar membros da família Kennedy que moram na região.

Nantucket e a vizinha Martha’s Vinyard, foram compradas por Thomas Mayhew em 1641. A primeira foi baptizada com um nome ameríndio que exprime isolamento e má qualidade do solo. É a partir de 1715 que se estabelece nestas paragens esta lucrativa actividade. A dado momento, havia 125 navios baleeiros registados na administração marítima.

Quase tão importante como New Bedford, a ilha dependia inteiramente de todos os produtos relacionados com a baleia. E acrescente-se, por curiosidade, que estando as tripulações ausentes por dois ou três anos, eram as mulheres que tratavam dos negócios e geriam a maioria do comércio. A influência da religião Quaker é outro elemento a considerar, visto que lhes atribuía um maior papel na sociedade. Uma artéria da Baixa continua a ser conhecida por Petticoat Row (travessa dos saiotes).

Até à guerra de 1812, com a Grã-Bretanha, a principal actividade económica da região centrava-se nesta indústria. Porém, metade da frota baleeira viria a ser destruída durante o conflito e acabaria uma vez por todas com a descoberta de métodos de iluminação pública mais eficientes. Na actualidade, todo o condado vive à custa do turismo.

Na última manhã, antes da viagem para o aeroporto de Boston, ainda estávamos a apreciar o céu todo azul e a brisa a soprar sobre o ancoradouro dos ferries, quando pensámos em Cascais.

Anunciava-se o outono e bandos de pássaros chilreavam nas árvores que testemunham, século após século, as eternas migrações. Para o sul no outono, para o norte na primavera. Tal como em Portugal.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados