SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 18:05

Perus voadores

Há cerca de um mês, aconteceu-nos algo inusitado. Numa das habituais voltas de bicicleta, no meio de um bosque, deparámos com uns ciclistas a olhar para uma árvore. Para surpresa nossa, o alvo da atenção era um peru selvagem poisado num ramo de ácer.

Imagine-se o espanto, quando, em recente visita ao Cabo do Bacalhau (Cape Cod), encontrámos meia dúzia destes animais a debicarem sementes e insectos no relvado da Família Butler. Sujam tudo e, por isso, nem a Maria Cremilde nem o Peter lhes acham muita graça. Tiveram a gentileza de disponibilizar a foto que acompanha estes parágrafos.

Por isso, e também por o Dia de Acção de Graças (Thanksgiving) estar à porta no Canadá, elegemos estes galináceos para tema de hoje. Como os leitores saberão, o peru recheado é o prato insubstituível neste importante feriado. Assim como na época natalícia.

O Thanksgiving original terá tido por objectivo agradecer aos índios Wampanoag o terem salvado da morte os Pilgrims da Nova Inglaterra. Celebração que alcançou maior dimensão durante a presidência de George Washington e, mais tarde, na de Abraham Lincoln. Foi ele quem assinou, em 1863, o decreto que instituiu este feriado nacional. Claro, o menu dos pioneiros era significativamente diferente daquele que a lenda descreve.

Mais perto de nós, recordamos a polémica criada pelo Ministério dos Recursos Naturais, quando foram importados 274 perus selvagens dos Estados Unidos a fim de que a espécie repovoasse territórios de onde se tinham extinguido em fins do século XIX. Transferiram, em seguida, uns trinta do sul do Ontário para a floresta de um condado perto da capital federal. Ninguém levou a sério as críticas dos ecologistas. Pensava-se que morreriam congelados ou seriam comidos pelos coiotes. Contudo, eles sobreviveram, adaptaram-se e reproduziram-se sem dificuldade.

As estimativas oficiais apontam para os cem mil. Apenas nesta província canadiana, pois serão sete milhões num habitat que se estende do México ao Alasca. Em comparação com os primos domesticados, que compramos no supermercado, nota-se que são mais pequenos. Por certo, também mais velozes e inteligentes.

A nobre ave era um alimento preferido dos nativos americanos. Conta-se que apesar de Benjamin Franklin jamais se ter oposto em público à escolha da águia como símbolo da nação americana, em 1784, afirmou numa carta dirigida à filha Sarah que preferia o peru como pássaro nacional.

Quiçá por ocupar uma posição elevada nas civilizações nativas do continente, em especial na mitologia de muitas tribos, é insubstituível em diversas culturas das Américas do Norte e Central. Com efeito, antes da conquista europeia, perus e patos eram as únicas aves domésticas destes povos.

Contrariamente à pacificidade dos perus do jardim do casal torrejano de Falmouth, é a agressividade que caracteriza os de Ottawa. Ainda há pouco tempo, os media locais noticiaram que um macho atacou algumas pessoas num dos bairros periféricos da cidade.

Gostamos de os ouvir grugrulejar. Também gostamos deles a saírem do forno bem coradinhos.

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