SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 12:49

Marmelos e marmelada

Muita gente pensa que Janeiro é o mês de novos começos, contudo nós julgamos que esta associação seria mais apropriada com Setembro. Após a desaceleração estival, é quando crianças e adolescentes reiniciam as aulas e os adultos retomam a sério a labuta diária. Também é quando nos damos conta das primeiras beliscaduras de vento frio e, bem assim, das folhas das árvores a mudar de cor. Em contra corrente, aproveitamos uma licença sabática e apreciamos a liberdade de horários. Apenas a orientação de teses e os projectos de investigação nos constrangem um pouco.

Foi neste estado de espírito outonal que reparámos numa notícia publicada na última edição deste semanário (19.09.2014, p. 14). O título era: “Em Tomar Instituições apanham marmelos em jornada de solidariedade”. Ficámos a saber que a comunidade nabantina ia colhê-los numa fazenda da câmara e que seriam doados a instituições sociais e a quem os quisesse levar para casa.

Os circuitos cerebrais encetaram a sua função, pois não é apenas em Portugal que os marmelos aparecem nesta altura do ano. É agora que, com sorte, os encontramos à venda na América do Norte.

Recordamos de ver estas plantas nos campos agrícolas torrejanos a separar propriedades. Alguém um dia nos explicou que os marmeleiros eram da mesma família das roseiras. Só nos convencemos dessa realidade quando, a um dado momento, os vimos em flor. Os entendidos dizem que teve origem no norte do Irão, nas margens do mar Cáspio. Daí teria chegado ao mundo greco-romano, onde a sua cultura estava relacionada à veneração por Vénus e Afrodite. Simbolizava amor, fertilidade e felicidade.

Com o tempo, propagou-se por toda a área mediterrânica e, em seguida, por outras partes do mundo. Os maiores produtores são Turquia, China, Uzbequistão, Marrocos, Irão e Argentina. Os que se vendem nos mercados canadianos são importados sobretudo deste último país, por vezes das Antilhas, e nunca os encontrámos à venda a menos de um ou dois dólares por unidade. Por curiosidade, acrescentamos que a variedade mais estimada pelos produtores é a “cydonia oblonga lusitânica”.

Estes frutos eram comuns nas mesas dos nossos antepassados. Possivelmente, por serem então mais plantados do que o são no presente. Muitos portugueses ainda desconhecem que, tal como acontece com as maçãs e as peras, a utilização dos marmelos não deve limitar-se à doçaria. Não temos nada contra a marmelada —a preferida é a da marca Casa da Prisca que trazemos de Portugal—, e somos grandes apreciadores de “dulce de membrillo” com queijo manchego. Tampouco os recusamos assados no forno, uma sobremesa simples mas de paladar intenso.

No entanto, admiramos a culinária de outros países que os preparam de maneira diferente. Como qualquer cozinheira sabe, são ricos em pectina. O que talvez não saibam é que na maior parte das receitas que pedem maçãs, elas podem ser substituídas por marmelos. Por exemplo, persas, turcos e gregos comem-nos recheados com carne de borrego e, mesmo nós, há muito que servimos geleia de marmelo a acompanhar perna de cordeiro no forno. Não fica nada atrás da “so very British” geleia de hortelã.

Aventurámo-nos no ano passado a salteá-los aos cubos com batatinhas amarelas e cebola. Uma dose destas batatas, aromatizadas pelos marmelos e a cebola, dão um equilíbrio delicioso a pratos de carnes fortes como javali, porco ou pato. Basta refogar tudo com tomilho fresco por uma dúzia de minutos e temperar com sal marinho e pimenta do reino.

Provámos pela primeira vez esta receita em casa de uma vizinha que é uma cozinheira exímia, de mão cheia, como se costuma dizer. O seu saber é apenas de ouvido e de experiência feito, nada mais. Gosta de criar contrastes gustativos, quer no peru recheado do Thanksgiving quer na simples galinha corada. Ou dois marmelos, água, meia taça de açúcar, e uma mão cheia de arandos (cranberries) frescos ou congelados, cujo sabor suaviza a adstringência dos primeiros. Contou que outra maneira de os preparar era escalfá-los em água a escaldar e, em seguida, deixá-los ferver a fogo lento durante cerca de meia hora. Sempre que “põe a mão na massa”, a sua casa exala um aroma agradabilíssimo.

Nestas paragens, isso faz parte do que gostamos neste fruto: ser tão distinto, tão incomum. Numa ocasião, na secção dos produtos exóticos do supermercado, uma senhora de expressão francesa perguntou-nos se sabíamos como se chamavam. Respondemos que eram “coings”.

E enquanto não tenhamos tempo para esbanjar com este tema, acreditamos que a narrativa associada a estes pomos faz parte do seu sabor.

Então! Que iremos fazer com os que comprámos? Cozinhar fatias com um toque de açúcar castanho e baunilha e, em seguida, embalá-las em sacos de plástico para as congelar. Serão mais tarde utilizadas em tartes, tortas, compotas—e para misturar nas papas de aveia que consumimos nas manhãs frias de inverno. São um regalo. Quiçá terminem num frasco de vidro, maceradas em aguardente e especiarias.

Finalizamos com uma frase em memória do nosso amigo Tadeu, emigrado em Montreal, e que, há muitos anos, nos serviu de guia na sua querida Ilha do Faial: “Meu Deus, eu sei que estamos aqui a viver no passado, mas as pessoas adoram a estrada velha, porque é nela onde vão procurar o que nós costumávamos ser “.

Seguimos veredas paralelas. A nossa levou-nos agora aos marmelos. Aos de ontem e aos de hoje

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