SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 04:19

Cavalas e Tomates

Com o verão a aproximar-se do fim, surgem caras desconhecidas na universidade e é chegado o momento de repor alguma ordem no gabinete de trabalho. Começamos pela triagem da papelada acumulada na secretária. Deitamos fora um monte de jornais e revistas. Deslastramo-nos do dispensável para entrar com o pé direito no novo semestre.

Para esta semana ainda estival, serve-nos de inspiração a entrevista feita pelo “Público”  a uma grande dama da culinária nacional: Maria de Lourdes Modesto, “a menina da cozinha que se tornou guardiã do fogo” (3.08.2014).

A última frase ressonou connosco. Diz ela: “E a cozinha portuguesa é uma cozinha de mulheres. Fomos nós, mulheres, que fizemos a cozinha portuguesa”.

Não podia ser mais verdade! Com efeito, as recordações são disso testemunha. Desde a dominical galinha corada no forno da avó Maria do Ó aos pratos mais complexos da Zima materna, passando pelo risoto de cogumelos conjugal, sempre fomos bastante afortunados nesta área.

Ontem, numa banal ida à peixaria, surpreendeu-nos encontrar cavalas que, até data recente, jamais se situaram na lista de prioridades dos consumidores. Por muito deliciosas que sejam, não é peixe de grande saída. Quiçá por ter de ser preparado fresco, pois deteriora-se em pouco tempo.

As cavalas que vimos no mercado tinham óptimo aspecto e logo decidimos comprar algumas. Tal como o primo atum, são de carne firme, de baixo teor de gordura e ricas em vitaminas. Da mesma maneira que as sardinhas ou o salmão, parece que foram criadas para a grelha. Além disso, são abundantes, de pesca sustentável e baratíssimas.

É um peixe bonito com a pele listrada de azul, negro e verde, à maneira dos tigres. Em inglês, dá pelo nome de “mackerel”. Os franceses chamam-lhe “maquereau”. Para quem não saiba, esclarecemos que, na língua de Molière, esta palavra também é utilizada para designar um proxeneta.

Na loja onde nos abastecemos, não as guardam por mais de um dia. Desprovidas de cabeça e vísceras, as humildes cavalas podem grelhar-se em cima de ramos de loureiro e os apreciadores deste condimento aromatizante recheiam-lhes antes a cavidade abdominal com folhas da mencionada planta. O resultado? Muito positivo.

Há ainda quem as tempere com gengibre, faça uma cama de cebola e azeite num tabuleiro, e, em seguida, as asse no forno por uns vinte e cinco minutos. Depois, é só comer e lambuzar os dedos!

Na juventude torrejana, comíamo-las cozidas com batatas e talvez feijão-verde. Tudo bem regado com azeite e vinagre. Recordamos que o sabor se assemelhava ao do atum, quiçá por marcarem presença no comércio das conservas.

Que servir para acompanhamento? Nada melhor do que uma valente salada, nas primeiras semanas de Setembro.

A correr ou sem pressa, lemos sempre com prazer as crónicas de Miguel Esteves Cardoso. Desta vez, despertaram-nos a atenção umas linhas publicadas na revista “Fugas” que, aos sábados, vem com o “Público” (30.08.2014). “Todos os anos há uma curtíssima quinzena em que o tomate sabe mesmo a tomate. Acho que já passou a primeira semana e que ainda falta a segunda — depende do lugar onde está […] Durante esta quinzena, comemos o tomate, aqui em casa e nos restaurantes aonde vamos, só com cebola, sal, azeite e vinagre. Nem os mais deliciosos orégãos se podem aproximar.” Estamos de acordo.

Se assim é em Colares, o tempo também cooperou no leste do Canadá. O canto discreto do jardim onde brincamos aos hortelões não tem motivos de queixa. Num canteiro que mal dá para plantar um pé de salsa, os tomateiros deste ano transformaram-se numa autêntica cornucópia de “corações de boi” e de pequenos “cherry” amarelos.

Foi assim que saboreámos há momentos o melhor almoço do verão: cavalas grelhadas com um salada de tomate, cebola e basílico. Quase como as que preparam as cozinheiras portuguesas.

Simplesmente perfeitas!

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