SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 16:17

A França já não é o que era

Não é raro os nossos compatriotas residentes no estrangeiro ouvirem os “nativos” a falarem de Portugal por cima da burra. Em certos casos, é evidente a ignorância geral. Porém, o que espanta é constatar que alguns desses povos têm tantos problemas como nós.

A França pode servir de exemplo, visto que a prosápia dos seus cidadãos os leva a crer que o sol orbita em torno da sua língua, cultura e tudo o mais que eles imaginam.

Ora bem. Demos há momentos uma olhadela no “ Figaro” (diário do centro-direita) e no “Monde” (da esquerda). Notámos que, na presente conjectura, a trapalhada é maior do que em Lisboa. Com efeito, mesmo o insuspeito “Le Monde” reconhece que a gestão do socialista Hollande é um “bateau ivre” (barco ébrio), sem rumo nem piloto. Não será para admirar que só 16 % da população aprove “Monsieur le Président”.

Para mal da República, o cancro não está circunscrito ao Palácio do Eliseu. As metástases estenderam pela nação inteira. E até se fazem sentir além-fronteiras.

Há cerca de uma semana, o “Público” (17.08.2014) noticiava que, em Albufeira, a GNR foi atacada várias vezes por jovens franceses e que cinco guardas ao intervirem num rave no Alentejo também foram apedrejados por turistas da mesma nacionalidade. Três foram identificados por posse de arma proibida.

Segundo um dirigente sindical, “são indivíduos dos subúrbios de Paris, vêm para o Algarve e fazem apostas. Até se fala em apostas de 100 euros em como conseguem agredir determinado militar, que é do corpo especial e, por isso, a adrenalina é maior […] De tal forma que se tornou banal a agressão a agentes da autoridade”.

É possível que estes valentões habitem numa das sete centenas de ZUS (zonas urbanas sensíveis) demarcadas pelo governo. Áreas onde a polícia é inoperante, onde não se vislumbra maneira de impor a lei. Nesses bairros, as “autoridades” toleram o inaceitável, pois quem reina pela violência são os caides da droga e os devotos de extremismos. Actualmente, largas fracções de Marselha, Toulouse, Montpellier, Lyon, etc., parecem situar-se fora da jurisdição do Hexágono.

Anos a fio, era com cepticismo que líamos este género de notícias. Pensávamos que talvez fosse propaganda da direita. Em Dezembro, contudo, foi o venerado “Le Monde” (18.12.2013, p. 10) que associou o aumento da taxa de criminalidade aos “estrangeiros”. Tinha subido 26%.

Alguns desses “franceses” sabem que em Portugal a justiça também não funciona e dão-se ao prazer de fazer apostas de agressão aos agentes que os obrigam ao cumprimento da Lei.

De novo, recorremos ao jornal “Le Monde” (13.08.2014, pp 1-6.) para ilustrar outro exemplo do declínio franciú. Um estudo efectuado pelo Crédoc prova que tirar férias de verão se tornou num privilégio gozado por apenas 43% da população. Porquê? Talvez por terem aumentado as desigualdades económicas e a carga fiscal.

Basta ler a imprensa parisiense para confirmar que desapareceu a “doçura” da música francesa tão apreciada pela nossa geração. Quem pode esquecer Charles Trenet e a sua “Douce France // Cher pays de mon enfance // Bercée de tendre insouciance // Je t’ai gardée dans mon cœur”? (Doce França // Querido país da minha infância // Embalada pela serenidade  //  Guardei-te no coração!)?

Ou “Les feuilles mortes“, na voz de  Yves Montand :“Oh je voudrais tant que tu te souviennes // Des jours heureux où nous étions amis // En ce temps-là, la vie était plus belle // Et le soleil plus brûlant qu’aujourd’hui“. (Oh, como eu gostaria que te lembrasses // Dos dias felizes em que éramos amigos // Naqueles tempos, a vida era mais bonita // E o sol mais ardente do que hoje).

As misérias de todos os tipos não podem senão multiplicar-se, dada a extensão do desemprego e da pobreza. Isto num quadro explosivo de desafios étnicos e religiosos. Os franceses sofrem as consequências destes graves quebra-cabeças. Temem andar à noite pelos centros urbanos, onde arriscam ser pilhados de dinheiro e bens pessoais por gangues de criminosos. E a hesitação da liderança PS compreende-se, pois estes predadores fazem parte da sua base eleitoral.

Há quem diga que uma percentagem significativa da classe operária, antigos eleitores do PCF, agora vota no Front National de Marine LePen. Devagar, mas de maneira continuada, a nação definha. Tornou-se uma terra de insegurança, racismo e desordem generalizada.

Para solucionar o problema, os socialistas franceses repetem que estão a preparar uma fase de grandes investimentos privados. Mas de onde virá o capital? Sabemos como são estes gestores públicos. Poupar não é com eles, gastam sempre mais do que têm. Acreditam na lotaria ou, como dizem alguns companheiros deste lado dos Pirenéus: a dívida não é para pagar! Deve tratar-se de contágio lusitano.

Por muito triste que seja, é forçoso reconhecer que na pátria da “Liberté, égalité, fraternité“ todos os motores de actividade socioecónomica estão avariados. Hoje a França é chefiada por um presidente que não respeita o povo e, por seu turno, o povo não respeita o governo. São favas contadas.

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