SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 13:11

Fim-de-semana no lago

Quem não gosta de escapar da rotina quotidiana? Ir passar uns dias fora? No bulício urbano, no sossego aldeão, ou perto de um curso de água. Há muita gente que espera com impaciência pela tarde da sexta-feira para sair e deixar para trás as preocupações profissionais.

Nos idos da juventude, logo na primeira semana que estivemos em Indiana, convidaram-nos para um fim-de-semana num dos inúmeros lagos do norte do estado. Ainda recordamos o nome: Webster Lake. Mais tarde, na Suécia, tivemos o prazer de fruir períodos de lazer nas “stugor” de colegas nas províncias de Småland e Skåne. E, com frequência, amigos e vizinhos opinam que a boa-vida é sinónimo do tempo passado na casa de campo. De pés descalços na relva, a partilhar o churrasco, ou em intermináveis cavaqueiras sob um céu cheio de estrelas. Em geral, à beira d’água.

Neste estado de espírito, fomos para o norte do Québec que, como o Ontário, também tem milhares de lagos de todos os tamanhos e feitios. Um amigo pôs à nossa disposição um chalé nos arredores de Maniwaki, a 150 km da capital federal, quase no território dos índios Algonquinos. Há pelo menos três décadas, dedicávamos os sábados à canoagem na região. Aqui, todos os lagos são de grande beleza: Philippe, La Pêche, Meech, Des Ormeaux, Heney, Du Poisson Blanc, De la Barbue, assim como o rio Gatineau que desagua no Ottawa River. As recordações estavam a esmorecer, mas foi rápida a identificação de alguns pontos de referências.

Após uma manhã sem actividades de realce, fomos dar uma volta de barco. Quando ocupávamos os fins-de-semana a admirar a natureza canadiana, os anos não pesavam tanto e a energia era maior. Desta vez, impunha-se um mínimo de prudência, pois a meio da tarde o vento muda de direcção e este facto cria desafios relacionados com ondulações e correntes. Por isso, decidimos não nos afastar muito das margens.

Se próximo da terra firme, as águas são límpidas e transparentes, o mesmo não acontece ao chegar perto do centro. A superfície toma um tom verde-garrafa e pode aparecer um batel com pescadores a tentarem capturar trutas, achigãs, percas, lúcios, etc. Mais interessante, porém, é quando alguma avioneta com flutuadores aterra no lago, como se fosse um aeródromo. Quem não deve apreciar estas proezas serão os gansos, patos, mergulhões, castores e tartarugas que abundam nas redondezas. Para felicidade deles e nossa, é raro ver barcos a motor ou praticantes de esqui a fazer ondas.

A moldura de árvores é impressionante e olhar à volta transforma-se num exercício estético. Estão representadas bastantes espécies das florestas setentrionais: pinheiro, abeto, ácer, ulmeiro, carvalho, etc. Entre a ramagem, esvoaçam pássaros que podemos identificar (gaios, melros da América, pica-paus de cabeça vermelha, chapins, corvos, águias-reais e falcões) e outros que, por ignorância dos respectivos nomes, nos obrigam a consultar o manual de ornitologia.

Numa enseada atapetada de nenúfares—fazendo lembrar os “Nymphéas” de Claude Monet—uma libelinha pousa junto à proa. Na contraluz, os fios de uma enorme teia de aranha interligam galhos de uma árvore morta.

Neste afortunado cenário, é fácil esquecer o trabalho e os cuidados a ele associados. Que importa se metade dos portugueses está a roubar a outra metade e que as vítimas só lamentem não serem elas a aproveitarem-se da situação. Ou que um califado tenha sido proclamado no Médio Oriente. Tudo isso está tão longe! Uns dias como estes e até nos convencemos que as leis do universo são menos complexas. Quiçá a verdade dependa de um passeio no lago!

Um peixe com tons iridescentes dá um salto repentino e quebra a pacatez do momento. No relvado do chalé para onde nos dirigíamos, vê-se um cachorro a brincar com o dono. Corre direitinho à água e regressa com um pau na boca. Como uma flor, vira a cara na direcção do sol e sacode-se, borrifando o treinador.

Ora bem. Esqueçamos as atribulações do mundo e, por agora, deixemos desanuviar a cabeça, dar asas à imaginação. Não há nada como uns dias em companhia de um bom livro e de amigos. É verão, tempo para sonhar e descansar um pouco, quando a preguiça não denota imperfeição mas sim inteligência.

Como dizia o poeta William Carlos Williams: “in summer, the song sings itself”. (no verão, a canção canta-se ela mesma)

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