SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 22:03

Aquilo e daquilo, a propósito do sauvignon blanc

Ainda faltam uns meses para se ouvir o cricri dos grilos, mas o pôr-do-sol do 1° de Julho, Dia do Canadá, serve de desculpa para conviver com os amigos. Um dos convidados trouxe um sauvignon blanc neozelandês e um vizinho preparou gambas marinadas em ervas aromáticas.

Ora bem, o vinho está para a comida como o cavalo para a charrete. Assim, não surpreenderemos ninguém se começarmos por afirmar que os pratos emblemáticos de uma determinada região devem ser acompanhados com vinhos do mesmo sítio. Com a ampliação do interesse pelos ingredientes disponíveis localmente, surgiu a sedução das produções da enologia da terra. E, como sabemos, um dos prazeres do consumo do vinho é casá-lo com comidas que lhe dêem mais carácter e vice-versa.

Há uns anos, escrevemos neste jornal algumas observações efectuadas durante uma viagem à Nova Zelândia. À semelhança do Canadá, trata-se de um país seguro dele mesmo, onde residem pessoas descontraídas, empreendedoras e ainda marcadas pelo espírito dos pioneiros. O povo espelha autoconfiança e esta, por sua vez, permeia tudo o que se faz. O movimento locavore, que defende a utilização de produtos regionais adquiridos directamente dos agricultores, caracteriza a gastronomia local. Desde os legumes e hortaliças ao cordeiro criado em liberdade e só alimentado com o pasto natural.

O multiculturalismo também lá chegou. A comida é variada e interessante. Na rua onde estivemos alojados, encontravam-se restaurantes e cafés de diversas etnias: chinês, italiano, grego, tailandês, japonês, turco, americano, etc. Era só escolher. Embora a comida se tenha internacionalizado, o prato nativo que talvez sirva de dominador comum é o “hangi”. É confeccionado com carne de porco e de borrego, batatas, inhames e abóbora.

A vinicultura da Nova Zelândia enquadra-se na sua própria categoria, pois beneficia de uma impressionante selecção de vinhos. São em número de dez as principais regiões vinícolas que criam alguns dos melhores néctares que tivemos o prazer de degustar. O campeão deve ser o ”sauvignon blanc” de Otago (Ilha do Sul).

E se os maoris (minoria de origem polinésia) ou os pakehas (de origem europeia), buscarem mais do que água para matar a sede, a nação produz cerca de 310 milhões de litros de vinho, o que dá cerca de 80 litros por pessoa (incluindo bebés, crianças e abstémios). Não é de estranhar que o país tenha alcançado um lugar ao sol entre os principais exportadores. Em menos de meio século, começou a competir em grande. A qualidade é hoje de tal calibre que justifica preços elevados quando comparados, por exemplo, com a média dos portugueses, argentinos, chilenos ou italianos.

Sempre admirámos e divulgámos os tintos de Portugal. Como muitos outros apreciadores, pensamos que os brancos portugueses não conseguem concorrer nos mercados mundiais. Basta andar pelas lojas de vinhos de qualquer continente para comprovar. Prateleiras atulhadas de pinot grigio, típico do Alto Adige/Südtirol italiano, de chardonnay australiano ou de riesling alemão. Até o verde passa despercebido.

Em geral, os grandes brancos são secos e os mais caros vêm de França e da Califórnia. Os consumidores gostam deles frutados, com paladar metálico e com um ligeiro sabor a especiarias. O universo olfactivo e gustativo dos brancos famosos é complexo, quer ele seja oriundo dos Vales do Loire, do Reno ou de Napa, quer do Condado de Sonoma.

Porém, para bebericar nas longas tardes estivais, à beira de um lago ou debaixo do pára-sol do jardim, não há casta que supere o “sauvignon blanc” neozelandês. Frisante e perfumado, herbáceo e refrescante. É imbatível para acompanhar mariscos ou um peixinho grelhado com ervas aromáticas e um toque de limão. O nosso preferido é atum fresco, temperado com limão e “dill” (endro ou aneto). Também combina com salmão sazonado com sumo de lima, pimenta e “chives” (cebolinha).

Na referida viagem aos antípodas, um primo e torrejano de Sydney serviu-nos Oyster Bay, uma marca de “sauvignon blanc”, das mais vendidas à escala mundial. Já conhecíamos esta super-heroína das castas brancas na qual apostaram, a partir da década de setenta, os viticultores neozelandeses. Combinou perfeitamente com as gambas em molho picante. Ainda em Agosto, em companhia de uma garrafa com o mesmo rótulo, cavaqueámos sobre o Vale da Serra com a Maria Cremilde e o Peter Butler.

Bem, já é hora de concluir. Não falemos mais nisto e muito menos daquilo. Como disse o irrevogável vice-primeiro-ministro: estamos a entrar na “silly season”.

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