SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 13:46

Pontos de exclamação ou de interrogação?

Luminosidade no máximo, temperatura agradável e um cardeal, de vermelho-carmesim vestido, a cantar na bétula do jardim do vizinho.  Que mais se pode pedir para uma tarde de esplendor nestas latitudes nórdicas?

Umas semanas fora e rabiscamos os parágrafos de hoje com o passado a desfilar pelo pensamento. Mais precisamente, revemos os dias em que, acabadas as aulas, podíamos passar intermináveis horas a ler no terraço da casa com traseiras quase a banharem-se no Almonda. Espaço coberto por uma venerável parreira e no qual dominavam os gerânios a espreitarem pelo parapeito.

Quando o sol dava em cheio, transformava-se numa fornalha. Na margem oposta à rua da Bácora, encontrava-se uma fiada de choupos enormes a separar o rio do campo de futebol e, um pouco a jusante, do ringue de patinagem. À noite, não eram só melgas e mosquitos que entravam pela janela do quarto. Os chilrados dos rouxinóis criavam uma atmosfera de magia. Não estamos a efabular. É a pura das verdades.

Quiçá pela direcção do vento mudar, durante o verão não se ouvia o chiar lúgubre dos comboios na linha do Norte. Nem sequer a algazarra dos gatos nos telhados. Apenas o latir dos cães, que fantasiávamos a residir numa fazenda então existente na rua do Nogueiral. Ah! E, dos lados do quartel, os toques de corneta da “alvorada” para os magalas se levantarem. Ainda na época da Escola Prática de Cavalaria.

Aos domingos, tínhamos de ir à missa com vestimenta mais formal. Os pés, acostumados ao conforto das sandálias, não achavam graça nenhuma às constrições dos sapatos e dos soquetes. Um sacrifício que asseguraria aos crentes um lugar no paraíso. Assim era a época em que obedecíamos, sem hesitações nem reticências, aos padrões sociais em voga. Acrescente-se que, em Torres Novas, se respirava um ar de “fin de siècle”. Do 19º, diga-se! Para agradar a quem? Que sociedade tão anacrónica! Inconfortável como calçado apertado.

Na nossa casa lia-se “O Século”, cujo director era João Pereira da Rosa. Uma pessoa com idêntico nome de família, que nada tem a ver connosco. No entanto, ao começar a anoitecer, chegava o vespertino “República” na carreira do Entroncamento. Vendia-se na tabacaria do Sr. Costa, no largo da Botica.

De qualquer modo, continuamos a sentir satisfação ao afirmar que nunca tivemos grande entusiasmo pela Mocidade Portuguesa. Só gostávamos de participar nos torneios de voleibol escolar e nos acampamentos.

E também nos vêm à memória as andorinhas que, jubilosas e plenas de alegria, faziam acrobacias nos céus torrejanos. Eram um regalo para os corações da pequenada, sobretudo quando efectuavam voos rasantes sobre as águas do rio. Um dia, o Sr. Padre Búzio, ao surpreender um grupo de garotos a subirem as escadas da torre do Salvador para apanhar andorinhões-pretos, lembrou-nos que devíamos respeitar esses pássaros. Sabemos agora que atingem a velocidade de 100 km/h e são recordistas das migrações. Em data mais recente, aprendemos igualmente que são capazes de voar dois mil dias sem uma única paragem. Quando o mercúrio baixa no termómetro, no fim da estação quente, desaparecem em direcção da África subsariana (“Público” 21.10.2013, p.27).

Paramos, porém, este filme e passamos adiante com a nossa metamorfose em ave de arribação.

Tínhamos dezasseis anos e fomos viajar à boleira, visto que queríamos confirmar que havia outras maneiras de viver para além da estopada cá do sítio. Após uma deambulações pelos reinos de Espanha, atravessámos os Pirenéus e metemo-nos Europa a dentro.

Deve ter sido em princípios de Setembro que, saídos deste lado de “África” como Alexandre cognominou a Península Ibérica, descobrimos Paris. Numa tarde quase outonal. Caminhámos pelo boulevard de Saint-Germain-des-Prés, depois do metropolitano nos ter deixado na estação com o mesmo nome. As esplanadas dos cafés estavam a abarrotar de gente. E não era só nos célebres “Flore” e “Deux Magots”. Convencemo-nos, nesse preciso momento, que afinal Torres Novas talvez fosse uma óptima terra para nascer e morar na infância. Havia, porém, outros sítios com maiores oportunidades de realização pessoal.

Já as recordações iam pela França, rumo à Bélgica e à Alemanha, quando reparámos que eram horas de ligar o televisor e dar uma olhadela no jogo do Mundial com os Estados Unidos, depois da “Nationalmannschaft” ter, logo no primeiro choque, destruído as veleidades lusitanas.

Que podemos dizer? A não ser que o futebol é um jogo simples: vinte e dois homens a correr atrás de uma bola durante 90 minutos e, no final, são os alemães ou os brasileiros que ganham. Por falta de vocação, julgamos melhor não fazer prognósticos. Uma réstia de esperança? O desafio contra o Gana é já no dia 26 e, quando este jornal sair do prelo, já saberemos como se portou (deportou?) a selecção das quinas.

Voltamos às rememorações de outros verões com jogos da Copa e, realmente, confirma-se. Os alemães consagraram-se campeões em Berna e, em seguida, foi a vez dos brasileiros na Suécia (1958) e em Santiago do Chile (1962).

Até nos desportos, existe um universo onde os nossos Ronaldos, ora perdem ora ganham. Serão por isso menos portugueses?

Segundo José Pereira Tavares, autor de uma gramática usada no antigo 2° Ciclo dos Liceus (3ª edição, 1959), os sinais ??? e !!! exprimem pergunta e espanto. Em Salvador, Manaus e Brasília, assentam que nem uma luva!

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