SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 18 Junho 2021, 21:11

Cartagena, cidade bimilenária

Sempre gostávamos de livros de viagens. Com o passar dos anos, fomos descobrindo autores estrangeiros que escreveram sobre as diferentes regiões de Espanha. Mencionamos, entre outros, Haveloch Ellis, Washington Irving, Somerset Maugham, Ernest Hemingway, Gerald Brenan, Hugh Thomas, Paul Preston. Também houve alguns alemães e franceses. Porém, os incontornáveis são os ingleses  Richard Ford (1796-1858) e George Borrow (1803-1881). De todas as obras preferimos “The Bible in Spain”, um título bizarro para um livro que, neste domínio, é dos mais importantes do século XIX.

No princípio, estas leituras foram-nos impostas na universidade. Agora revisitamo-las por puro gosto. Em particular as que têm um sentido analítico encapuzado num humor “very British”. Sirva de exemplo “Spanish Temper” (V.S. Pritchett), onde a dado momento deparamos com esta frase: “The very day when Fernando VII closed the university in Seville, he opened a school for bullfighters there” (No mesmo dia em que Fernando VII fechou a Universidade de Sevilha, abriu lá uma escola para toureiros”).

Andámos a seguir nas pegadas destes estudiosos e, cumprindo o prometido, é com Cartagena, a Nova Cartago, que concluímos esta série de apontamentos sobre uma parte da costa mediterrânica do país vizinho.

Esta cidade continua a ser um dos lugares da península onde se respira civilização clássica. Como afirma Artur Pérez-Reverte a propósito das crianças que aqui vivem: “antes de atingirem a idade da razão já sabem ler, nas pedras, as inscrições em latim”. Entendem que o acrónimo SPQR, gravado em tantas lajes, significa que foi obra do “Senado e Povo de Roma”.

Desde a sua fundação pelo almirante Asdrúbal, tem mantido laços poderosos com o mar, sendo até ao presente um dos principais portos militares do Mediterrâneo Ocidental. Daqui sarpou, em 1509, a frota do Cardeal Cisneros para a conquista de Orão (na actual Argélia).

Talvez devido à situação estratégica e proximidade do litoral africano, atraiu fenícios, gregos, alanos, vândalos, bizantinos, árabes, cristãos e piratas de diferentes origens. Como Drake, nem todos vieram do Magrebe.

Já Cipião “O Africano”, que viveu de 236 a 183 antes de Cristo, tinha dito: “capta Carthagine, capta Hispania” (quem conquistar Cartagena, terá conquistado a Espanha) e, na verdade, nunca será de mais realçar a importância da vocação marítima da cidade e as características do seu porto fortificado.

O casco nobre foi renovado há pouco tempo, mas ainda sobram bastantes ruínas históricas para admirar. Paredes cartaginesas e anfiteatros romanos mostram a importância do burgo, sem esquecer bons exemplos de arquitectura modernista que revelam uma progressão de belas fachadas.

No Museu Nacional de Arqueologia, artefactos da Idade da Pedra podem ser admirados, enquanto algumas construções de defesa do período da Guerra Civil preservam a história desse período. Esta cidade com 2.300 anos de história, lembra o seu passado com o olhar fixo no futuro.

Mistura de valencianos e andaluzes, a população local tem fama de ser liberal, antimilitarista e anticlerical. Quiçá fosse por esse motivo que acolheu sem hesitar tanto a primeira como a segunda república. Contudo, os anos de guerra (1936-1939) não foram fáceis e deixaram clivagens profundas na sociedade civil.

Cartagena é uma sinfonia com notas de diferentes tonalidades: culturas ubérrimas de laranjeiras e limoeiros, serras bárbaras com minas de zinco e de chumbo, montões de escória e charcos de águas com as cores dos minérios, salinas dessecadas em geologias lunares, palmeiras anãs e piteiras descoloridas nas dunas, mar mais bélico e de turismo que pesqueiro, uma pequena burguesia constituída por oficiais da marinha e, mais recentemente, um proletariado industrial associado à construção naval e às refinarias de petróleo. Não muito longe, ao longo do litoral, edifícios e mais edifícios para alojar veraneantes do norte da Europa.

Terminamos com uma quadra encontrada num panfleto sobre este recanto ibérico: “Por el mes era de mayo // cuando hace la calor // cuando canta la calandria // y responde el ruiseñor”. Durante a nossa visita, não ouvimos nem cotovias nem rouxinóis, mas talvez os oiçamos numa próxima viagem.

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