SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 15 Junho 2021, 21:03

No antigo reino de Múrcia

Embora os muçulmanos tenham dominado este rincão da Península durante cerca de seiscentos anos, é difícil deparar com histórias imparciais. Esta falha talvez se deva ao facto dos cronicões medievais terem sido redigidos, sobretudo por cristãos, logo após a reconquista. Como sabemos, são os vencedores que escrevem a história e, em geral, apenas relatam o que lhes convém. Tem-se notado, porém, que as opiniões dos investigadores contemporâneos são mais equilibradas.

Alguns leitores desconhecerão que, em contraste com a relativa homogeneidade de Portugal, o país nosso vizinho é uma autêntica colagem de povos e línguas. E não estamos a pensar só nos bascos, catalães e galegos. O antigo reino de Múrcia foi igualmente um reino-fronteira. Politicamente, em relação às coroas de Castela e de Aragão, e entre cristianismo e Islão. Geograficamente, na fronteira entre a Meseta e o Mediterrâneo.

Esta raia não é apenas uma linha de separação ou zona de eventuais conflitos. É, ou devia de ser, um lugar privilegiado para o encontro de crenças e civilizações, num contacto fecundo de línguas e culturas.

Múrcia é uma das comunidades autónomas mais pequenas de Espanha. A capital ostenta um ar acolhedor e os murcianos devem sentir-se orgulhosos por habitarem numa cidade atraente e à escala humana.

Desde a colonização muçulmana que é o centro de uma região agrícola por excelência. Ainda hoje é daqui que seguem, a todas as horas, dezenas e dezenas de camiões carregados com frutas, hortaliças e flores com destino ao norte da Europa.

Por acaso, tivemos a oportunidade de admirar um imenso campo onde plantaram extensas fileiras de oliveiras, laranjeiras, amendoeiras, romãzeiras e palmeiras-tamareiras. Uma justaposição que representa a quinta-essência das produções mais características destas paragens.

Aliás, após a revolução do Neolítico e as invenções do azeite, do vinho e do pão, as costas do que mais tarde seria conhecido por “Mare Nostrum” dos romanos, ligar-se-iam pela navegação e pelo comércio entre nações ribeirinhas.

Nos tempos que correm, também o desenvolvimento do turismo nos municípios do litoral da província murciana se tornou uma fonte insubstituível de empregos, pedra basilar do bem-estar colectivo.

Os turistas não visitam este burgo para contemplarem obras de arte ou monumentos famosos. As casas nobres têm mais brasões do que nobreza e até alguém nos disse, meio-a-sério meio-a-brincar, que os locais se sentem comovidos por haver avenidas sem qualquer sombra.

Nas ruelas da parte velha, inclusive junto à catedral, os turistas não são numerosos. Múrcia tem um clima muito quente, fica no interior e centenas de outros recantos espanhóis têm o que aqui há. No entanto, gostámos de passear por esta zona. E, por inverosímil que seja, ainda é possível distinguir a população local dos forasteiros. Talvez pelos sacos das senhoras ou pelo informalismo dos homens.

Existem boas expressões da arquitectura barroca. Além dos templos religiosos, este apego à exuberância ornamental manteve-se até data recente no embelezamento de lojas na rua da Trapería, a norte da catedral. Salientamos o incrível Real Casino Múrcia que não é uma casa de jogo, mas sim um clube social e de recreio. As suas funções fazem lembrar as do Clube Torrejano na primeira metade do Século XX.

A decoração do edifício assemelha-se à de um requintado palácio mouro. E, nesta linha de pensamento, também o Museu Salzillo merece uma visita para ver os “pasos”— imagens de madeira utilizadas nas procissões da semana santa, que foram entalhadas pelo reputado escultor barroco Francisco Salzillo.

Ao percorrer uma região a correr, muitos lugares parecem-se uns com os outros. Para nós, viajar é andar uns quilómetros, parar, e tornar a olhar para um novo aspecto da mesma terra. Cartagena é a outra cidade importante que valeu a pena revisitar.

Talvez esta Nova Cartago sirva de assunto para a próxima semana.

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